LOST:QUANDO A FICÇÃO ENCONTRA A FÍSICA.

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Quando entrei na graduação de Física quase todos meus colegas eram fãs do seriado Star Trek (no Brasil Jornada nas estrelas). Particularmente eu era exceção, não porque não gostasse, mas porque o horário do seriado coincidia com o da novela e minha mãe não abria mão de assistir ao teledrama.

Hoje a TV a cabo possui vários seriados que fascinam amantes da ciência ou de ficção cientifica. A comédia  “The Big Bang theory” traz no próprio nome a referência de uma teoria da Física. CSI: Crime Scene Investigation (no Brasil CSI: Investigação Criminal) é um show de efeitos especiais e usa várias áreas da ciência para desvendar crimes.  Mas a sensação do momento nos últimos anos é Lost. Mistérios não faltam naquela ilha e as explicações para os mesmos têm levantado as mais variadas discussões em fóruns, blogs, twitter, Orkut e rodas de conversas.

É bastante claro que a intenção dos autores é mesclar mistério, ficção e ciência. Eletromagnetismo, viagens no tempo, armas  nucleares, professores de Química e até uma referência direta a um dos maiores físicos experimentais, Michael Faraday, que empresta seu sobrenome a um dos personagens, Daniel Faraday, que não por acaso é um físico que vai parar na ilha em busca de testar suas teorias. Agora, na última temporada da série mais uma área exótica da Física: os universos paralelos.

O seriado conquistou muita gente, aficionados ou não de ciência. Muitos alunos vêm me perguntar sobre a física de Lost e até propor uma aula sobre a série, pois acreditam que a Física possa responder aos inúmeros mistérios da ilha, inclusive a enigmática fumaça preta que desde a primeira temporada intriga a todos.

Em 2008 o seriado foi abordado à luz da Física moderna no trabalho de tese do Colégio Oswald de Andrade  intitulado Física não é só para nerds.  Os rótulos atribuídos àqueles que se dedicam à ciência. Apesar de ser um trabalho do ensino médio,  a aluna Maria Fernanda Sader Basile discute as relações da Teoria da Relatividade e da Física Quântica com os mistérios da ilha. A abordagem do trabalho não era sobre o que está errado ou certo no seriado, até porque o seriado não tem nenhuma obrigação de ser fisicamente correto, a crítica foi sobre o pré-conceito que os amantes da ciência sofrem, como se gostar de Física ou Matemática fosse sinônimo de pessoas que são completos bitolados como mostram alguns filmes caricatos. Em Lost é possível perceber como a ciência pode ser instigante e desafiadora, como um suspense de Hitchcock.

Uma crítica que pode ser feita ao seriado é o uso que se faz do eletromagnetismo. No final do século XIX, quando o mundo começava a conhecer as aplicações do eletromagnetismo, muitos fenômenos dessa área da Física eram apresentados como números de mágica ou atrações circenses. Estranhamente parece que esse modismo voltou. Palmilhas magnéticas, colchões magnéticos, garrafas térmicas magnéticas, e até calcinhas magnéticas são anunciadas para venda. O magnetismo parece estar associado a milagres impressionantes. O manual da garrafa magnética, por exemplo, diz que o magnetismo quebra as moléculas de água e com isso propriedades terapêuticas são obtidas. Bem, confesso que não sei se é possível quebrar as moléculas de água usando campos magnéticos tão fracos quanto os produzidos pelos ímãs da garrafa, mas, ainda que isto seja possível, quando estou com sede quero beber água (H2O com sais minerais) e não uma molécula de água “quebrada” (o que seria uma “molécula quebrada” de água? Hidrogênio? Oxigênio? Água oxigenada? Na dúvida fiquei com meu filtro de barro mesmo).

Por ser uma série tão inteirada com as novidades científicas, achei estranho que os autores de Lost fizessem uso justamente do eletromagnetismo como fonte de energia para provocar as viagens no tempo e outros efeitos. Autores tão imaginativos deveriam ter buscado inspiração em outras fontes de energia, mas, como já disse, o seriado é uma ficção e, portanto, não possui nenhum compromisso com as verdades científicas.

Apesar deste detalhe, a série é muito intrigante, principalmente pelas amarrações que vão acontecendo entre os personagens desde a primeira temporada. Parece que o sucesso da série foi tanto, que os autores decidiram adicionar mais uma temporada. Com isso algumas amarrações ficaram embaralhadas e confusas. A expectativa agora é saber se eles vão conseguir atar esses nós e ainda por cima solucionar todos os mistérios.  Mas para mim o principal já foi conseguido, mostrar que a ciência, principalmente a Física, não precisa ser enfadonha e cheia de fórmulas incompreensíveis. Ainda que o seriado não seja sobre ciência, ela serve como um pequeno pano de fundo para uma aventura instigante.

Um dos capítulos de que mais gostei foi o episódio 5 da quarta temporada, quando o personagem Desmond está enlouquecendo pois sua mente está viajando no tempo. Ele fica revendo momentos do passado juntamente com o presente e isso vai levá-lo ao colapso. Segundo o físico Daniel Faraday, sua única chance é encontrar uma constante para deter as viagens. Desmond então conversa por telefone com sua amada Penny e assim consegue estabilizar-se no presente. Achei genial a idéia de ser necessária uma constante para frear as viagens incessantes que caminhavam para o infinito. Na teoria do caos existe algo assim: são os chamados atratores, pontos para os quais uma série infinita pode convergir. Não importa se os autores tenham se inspirado nisso ou não, o que importa é que a forma como eles criaram esse episódio foi muito emocionante.

Arte e ciência vivem se encontrando e flertando uma com a outra. Ainda que tão diferentes na forma de operar, podem, quando na dose certa, nos brindar com uma excelente história. Desde um conto de Borges ou Cortázar a uma história de Asimov. Na literatura de Eça de Queirós ou na pintura de Picasso. Nas alucinantes obras de Escher  ou nos inventos de Da Vinci. Assim como o sal e o açúcar fornecem diferentes gostos à comida quando colocados em pratos separados, misturá-los em um mesmo prato pode nos trazer gratas surpresas.

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21 Respostas to “LOST:QUANDO A FICÇÃO ENCONTRA A FÍSICA.”

  1. Adriano Says:

    Hei, não me engane: seu paladar corinthiano não é capaz de apreciar gastronomias ousadas! Rs… Parabéns pelo texto, ficou muito legal!

  2. blogs oswald Says:

    Realmente sou um pouco tradicional para comidas, mas tenho muitos amigos que apreciam pato com laranja e dizem que é bom, então confio neles, e continuo com meu arroz com feijão fritas e bife…

  3. Pocetti Says:

    Jacó, que belo texto! Muito bom saber que Lost não está presente apenas no campo de nossas vidas intitulado “lazer”. É interessante mostrar aos alunos que seriados como Lost, CSI, entre outros, mostram elementos científicos ligados à realidade, e que podem ser vistos na escola. Para mim, o melhor epiódio ligado ao personagem Desmond se chama “Flashes before your eyes”, lá na terceira temporada. Mas o que você mostrou no seu blog também é muito bom. O final está chegando, e com isso vamos ver se respostas vão aparecer, principalmente aquelas relacionadas as viagens no tempo.

    Grande abraço.

    • blogs oswald Says:

      Grande Pocetti , saudades de novas conversas sobre o seriado…ele está acabando ,mas já tem substituto: flashforward…rsrs..sim dá pra discutir coisas em aula sim. abraço

  4. Lelê Ancona Says:

    Jacó
    adorei! Quero assistir a esta aula que gerou tantas perguntas, só os slides não são suficiêntes para que eu possa elaborar as minhas.
    Parabéns!

  5. Eliane Mota Says:

    Olá !
    Parabéns pelo trabalho !
    Nem preciso dizer que o assunto preferido aqui foi sobre o Lost. Amei…
    Abraços e parabéns !!

  6. Edu Campos Says:

    Muito legal essa mistura (e já que falou de gastronomia, era assim que sua mãe também se referia aquilo que tinha no prato e não era o arroz e feijão?) que fez no seu texto entre cotidiano (passado e presente), trabalho (aulas) e ciência. Apesar de ser mais entusiasta das viagens reais (presenets e futuras), isso sobre viagem no tempo sempre provocou muito a imaginação e o desejo de muita gente, inclusive o meu.
    Abração!

  7. Andrea Says:

    Jacó!

    Que texto bacana e gostoso de ler! Eu particularmente nunca vi Lost, prefiro os outros seriados citados, mas o texto ficou fantástico!

    E, não ouve o Adriano… hahaha…. Vai Corinthians!

    Beijos

    • blogs oswald Says:

      Também gosto de muitos seriados Andrea, mas falta tempo para segui-los. Lost é intrigante mas o melhor é que está com prazo pra acabar, por isso o acompanho. Qaunto ao comentário do Adriano, hoje não posso falar nada sobre isso 😦
      Que bom que vc gostou do texto. beijo

  8. Priszelen Says:

    Sir Jacó,
    Para elogiar esse belo trabalho, meras palavras não serão suficientes.
    Então resumo em “infinitamente, Parabéns”.
    Beijo
    Pri Mil

  9. Gabriela Padoan Jucas Says:

    Bom… Um imensooOOOOOOOOOOOooooo PARABÉNS… E… Obrigada!
    Por ser um MARAVILHOSO MESTRE… Por ser uma pessoa que todos admiram e se inspiram… Por ser um Mestre que anima os alunos de sexta-feira as 10h30m da noite para estudar e nos incentiva a ser alguém com idéias Criativas e ser a Eterna criança dos “Porquês?”.
    Admiro! À vontade e a Coragem de ensinar Esse dom são para Raros… e você foi um dos escolhidos! Pena que não sou a melhor aluna, não por falta de vontade, mas.. por falta de cabeça… !
    Parabéns (DiNovU) e Boa Sorte com seu Blog !
    BjaoZão !!

    • blogs oswald Says:

      Nossa Gabriela obrigado por tanto elogio..que bom que encontra sintonia na forma como ensino. Mas melhor aluno não é aquele que tira 10, e sim aquele que tem vontade de aprender. beijo

  10. Wanderley (tiozão) Says:

    Valeu mestre, seu blog é 10.

  11. Tarcila Rigo Says:

    Olha só! Mais alguém coloca Borges e Lost na mesma panela (falando em gastronomia exótica).

    Gostei muito, Jacó.
    Agora quero ver um blog do Lizânias. hahah!

    beijos

  12. Oseias Says:

    Esse blog tá bombando hein… pena não ter tempo de acompanhar diariamente… de qualquer maneira deixo minha aprovação…

    abraços teacher…

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