Como me tornei um físico

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            Quando eu era criança a resposta pronta para: “O que você quer ser quando crescer?” era sempre a mesma: médico.

            E até hoje ainda sou apaixonado por medicina, mas não sou frustrado com isso não, tenho certeza que se tivesse feito medicina, ainda assim seria um professor.

            Tenho uma lembrança nítida de um dia em que olhando para um jogo que tinha o desenho de várias profissões, pensei: “vou ser um cientista” (a figura era de um homem de jaleco branco cercado por tubos de ensaio, a visão clássica de cientista, no caso um químico).

            Desisti da medicina quando comecei a trabalhar aos catorze anos na Escola Politécnica da USP, numa Fundação. Eu era um office boy, profissão que foi praticamente substituída pelo motoboy. Como a Fundação era de engenharia e eu trabalhava com vários engenheiros, mudei de ideia e meu primeiro vestibular foi para engenharia elétrica. Felizmente não passei.

            No cursinho percebi que ser professor tinha muito a ver comigo, e cheguei a pensar em história e biologia, mas meu gosto pela matemática me fez decidir por física.

            No primeiro ano do curso percebi que não conhecia nada da profissão que tinha escolhido. O que fazia um físico? Eu não tinha a menor ideia, e me surpreendi com tantas opções. Havia tantas áreas de atuação e outras que eu nem sabia da existência. Já no segundo ano da faculdade comecei a lecionar e tive a certeza de que essa era a minha verdadeira vocação.

            Hoje não atuo mais como físico, na verdade foram apenas oito anos fazendo pesquisa. Mas o espírito científico continua vivo.

            Como professor de física meu principal objetivo é tentar despertar o cientista que pode ter ficado adormecido em cada aluno (já que toda criança é um mini cientista), alguns ainda trazem aquela curiosidade natural e a vontade de fazer experimentos, mas a maioria se acomodou ou descobriu outras paixões como a literatura, a arte, os esportes, etc.

            Uma vez um professor de computação mencionou que os físicos se davam muito bem na área da computação porque uma faculdade específica nessa área pode formar bons programadores, mas a faculdade de física prepara os alunos para resolver problemas e um bom programa de computação consiste em um problema a ser resolvido.

Talvez por isso seja fácil encontrar físicos atuando nos mais diversos ramos profissionais, muitas vezes bem distantes dos laboratórios. Onde houver um problema a ser resolvido chame um físico, que ele poderá lhe ajudar. Somos movidos a desafios, principalmente quando envolvem a lógica ou um determinado padrão.

            A profissão de físico pode ser dividida em duas: a Física Teórica e a Física Experimental. Na primeira o pesquisador usará muita matemática e provavelmente simulações em computadores para criar um modelo explicativo para algum fenômeno. Na segunda, o pesquisador desenvolverá experimentos, normalmente em grupo, para testar algum modelo teórico, ou para investigar alguma propriedade. Claro que estou sendo bastante simplista, há outras possibilidades, e existem físicos que transitam bem nas duas partes.

            Também temos a divisão entre o especialista, que sabe muito de algo muito específico, e o generalista que sabe pouco de muita coisa. Normalmente o generalista é um bom divulgador da ciência, alguém que tenta traduzir para a sociedade o trabalho do especialista.

            Como professor de física do ensino médio, tento fazer a função do generalista. Na faculdade de engenharia, isso é um pouco mais difícil, há um programa muito mais rígido a ser seguido, mas ainda assim tento lembrar aos alunos que as especializações são necessárias, mas que não podemos esquecer que sem uma visão global não há uma verdadeira compreensão.

            Física, Química, Biologia, Matemática, Ciências Humanas, Filosofia, Literatura, Música, Teatro, Pintura e outras expressões artísticas, tudo isso faz parte de nossa cultura. A nossa tentativa de procurar um significado para além da simples subsistência como ser vivo.

            Quando digo que sou professor e me perguntam de que matéria, é comum que eu veja uma careta ao mencionar que leciono Física. Provavelmente porque a visão compartimentada da Ciência mostrando a Física como uma matéria difícil e hermética não ajude. Infelizmente alguns físicos gostam dessa visão, talvez porque se sintam pertencentes a um clube fechado, em que apenas eles têm acesso.

            Claro que isso é uma visão errônea, qualquer área pode ser hermética. Há especificidades e dificuldades em qualquer área do conhecimento.

            Felizmente isso está mudando, as caretas estão diminuindo e algumas pessoas até ficam animadas ao ouvirem a palavra Física. O cinema e a Física Quântica tem um grande papel nisso, mas acredito que os principais responsáveis por essa mudança são os professores de Física.

 

 

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3 Respostas to “Como me tornei um físico”

  1. Felipe M. Aguilar Says:

    Grande Mestre Jacó, ler esse post me fez voltar às suas aulas de física na faculdade de engenharia (10 anos atrás, já!) e lembrar de como eram divertidas e interessantes ao mesmo tempo.
    Muito obrigado por seguir essa profissão e proporcionar o ensino desta matéria tão intrigante de uma forma bastante prazerosa.
    Tenho lido alguns dos livros recomendados por ti no post “Os Cinquenta livros que mais gostei na área de ciência e tecnologia”, atualmente estou no O Universo Elegante, do Brian Greene (sensacional!).
    Parabéns e espero que continue o trabalho de despertar o interesse pela física em seus alunos.
    Abraço

    • jacoizidro Says:

      Olá Felipe, primeiramente me desculpe a demora em responder. E muito obrigado pelo comentário e retorno. Infelizmente está muito difícil manter o Blog atualizado, mas a presença de pessoas como você me incentiva a continuar. abraço

  2. Como me tornei um físico — 12a Dimensão – postsfilosóficos Says:

    […] via Como me tornei um físico — 12a Dimensão […]

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