Archive for the ‘Biodiversidade’ Category

Há mais coisas entre você e seu intestino, caro leitor, que sonha a nossa vã filosofia

setembro 11, 2012

Exemplos de bactérias microbianas intestinais (sem escala e cores artificiais)

Em uma conversa durante um almoço, meu amigo e professor de biologia José Manoel, mencionou um artigo muito interessante que ele havia lido. Convidei-o então a escrever um post aqui no 12a. Dimensão, uma vez que ele é leitor assíduo e contribui bastante com seus comentários. Pra ser sincero achei que ele iria aguardar as férias mas para minha grata surpresa ele me enviou em alguns dias esse escrito que reproduzo abaixo. Espero que gostem assim como eu gostei. Obrigado Zé. Abraço

Jacó

Por:   José Manoel Martins

Mestre em Zoologia e Doutor em Ciências Biológicas pelo Instituto de Biociências da USP, professor de Biologia no EnsinoMédio do Colégio Oswald de Andrade e autor de Ciências do Ensino Fundamental II (Editora Saraiva) e do Sistema Anglo de Ensino e  pH Sistema de Ensino

O título desse texto, uma alusão a Hamlet, de Shakespeare (que espero que me perdoe de seu túmulo), me veio à mente após a leitura do artigo da revista Carta Capital de 29 de agosto de 2012, pp:54-59 (www.cartacapital.com.br), intitulado Nós e as bactérias, uma tradução feita do artigo original publicado pela revista The economist (www.economist.com), que traz uma visão pouco comum em relação às bactérias que habitam o nosso organismo. O artigo completo pode ser encontrado em: http://www.abradilan.com.br/noticias_detalhe.asp?noticia=11913.

Uma das reflexões que o artigo traz e que me chamou mais a atenção foi a de que “O óvulo e o esperma [do ser humano] fornecem cerca de 23 mil genes diferentes. O microbioma, como são chamadas coletivamente as bactérias comensais do corpo, teria cerca de 3 milhões.” Isso é fantástico! Pensar que além dos nossos próprios genes, também contamos com uma gama de genes de bactérias que vivem em simbiose com nosso organismo, nos faz pensar sobre o nosso conceito de organismo – seríamos apenas o conjunto de nossas células, provenientes do ovo gerado pelos óculo óvulo  e espermatozoide de nossos pais, ou seríamos esse pequeno ecossistema formado também pelos nossos simbiontes?

Várias substâncias que ingerimos, não são digeridas por nosso conjunto enzimático (produto de nossos genomas), mas sim por enzimas produzidas por bactérias simbiontes de nossos intestinos. É o caso, por exemplo, dos glicanos, açúcares comuns no leite mas que são apenas digeridos por enzimas bacterianas – e não é à toa que essas bactérias estão em nosso intestino num perfeito exemplo de coevolução homem-bactéria.

Essa ajuda mútua entre bactérias e homem em processos de digestão não é uma exclusividade desses seres vivos, bactérias que vivem em estômagos de animais herbívoros, como vacas, cavalos ou veados, também realizam importante papel na digestão, entre outras substâncias, do carboidrato celulose, de onde esses animais vão obter compostos importantes para seus processos metabólicos.

Mas voltando às bactérias e seres humanos, o artigo relata uma série de substâncias que são eliminadas pelas bactérias em sua digestão e que são absorvidas pelo homem, como “pequenas moléculas de ácido graxo, especialmente ácido fórmico, ácido acético e ácido butírico, que podem atravessar as paredes do trato digestivo e entrar na corrente sanguínea, de onde são inseridas nos caminhos bioquímicos que ou liberam energia delas (10% a 15% da energia usada por um adulto médio são gerados dessa maneira), ou as depositam como gordura.”

Descobertas recentes, como indica o artigo, já relacionam a fauna microbiana com várias doenças, entre elas a obesidade e a desnutrição. Os resultados apontam para a presença de microbiomas diferentes em pessoas obesas e magras e também que as bactérias “realmente participam do processo de emagrecimento, suprimindo a produção de um hormônio que facilita o armazenamento de gordura, e de uma enzima que impede a queima da gordura.”

No caso da desnutrição, os cientistas, estudando grupos de gêmeos fraternos e idênticos, encontraram microbiomas diferentes entre indivíduos bem alimentados e malnutridos, isto é, “ter o tipo errado de bactéria pode causar desnutrição.“ Esta é causada, principalmente, pela ausência de uma dieta adequada, mas também parece que as bactérias têm um papel importante nessa condição. Tratar pessoas desnutridas com uma “dose” de certas bactérias poderá ser um caminho para a cura.

O artigo da Carta Capital ainda aponta para a relação microbiana com doenças cardíacas, diabetes, esclerose múltipla e vários outros distúrbios:

Doença cardíaca I – quanto maior a quantidade encontrada na urina humana de ácido fórmico, produzido pelo microbioma intestinal, menor a pressão sanguínea e portanto, menor também a chance de doenças cardíacas.

Doença cardíaca II – experimentos em ratos especialmente criados para ser suscetíveis ao endurecimento das artérias mostram que a morte do seu microbioma (por meio de antibióticos), reduz “significativamente sua aterosclerose, embora o motivo disso permaneça obscuro.”

Diabetes – pessoas com obesidade mórbida, quase sempre diabéticas Tipo 2 (em que as células do corpo se tornam insensíveis à insulina), e que são submetidas a “um procedimento conhecido como Rouxen-Y, que cria um desvio (bypass) no intestino delgado e assim reduz a quantidade de alimento que o corpo pode absorver”, acabam por emagrecer e praticamente a “zerar” sua diabetes. Isso está sendo explicado pela alteração na composição do microbioma intestinal, resultante da intervenção cirúrgica e que de alguma forma faz com que a diabetes desapareça.

Esclerose múltipla – é uma doença autoimune (distúrbio em que o sistema imunológico da pessoa se volta contra si mesmo), na qual ocorre a retirada de sua bainha de mielina das células nervosas, o que as tornam inviáveis para a condução do impulso. Foi demonstrado que em ratos as bactérias intestinais participam do início do processo de reconhecimento das células nervosas como “inimigas”.

O uso de iogurtes conhecidos como próbióticos (composto por vários tipos de bactérias do iogurte), no caso de pessoas com a síndrome do intestino irritável, realmente melhora suas condições clínicas. Essa seria uma espécie de troca de bactérias “doentes” por outras “saudáveis”, mas não se sabe se realmente isso acarreta algum benefício em pessoas sem a síndrome. Aliás, estudos mostram que em gêmeos o uso ou não do iogurte não modificou seus microbiomas.

Certos procedimentos podem até parecer escatológicos demais para serem “bons”, mas eles têm demonstrado bons resultados. Trata-se da transferência de microbiomas inteiros de um intestino sadio para um doente, isto é, um transplante fecal (eca!). Casos comuns em que esse procedimento está sendo empregado ocorre em infecções, geralmente hospitalares, pela bactéria Clostridium difficile, causador de diarreia severa. “Os novos micróbios multiplicam-se rapidamente e tomam conta do intestino grosso, expulsando a C. difficile.

Doenças como o autismo também podem estar relacionadas com o microbioma intestinal. A competição que existe no ecossistema intestinal entre as bactérias presentes, pode levar à produção de substâncias como os fenóis (fabricadas por certas bactérias para matar eventuais competidoras) que, no entanto, também são tóxicas para as células humanas. Para neutralizar esses fenóis, nosso corpo produz substâncias à base de enxofre, que pode se tornar escasso devido à grande produção e, assim, prejudicar o desenvolvimento do cérebro que necessita muito desse elemento. E o que isso tem a ver com o autismo? Não se sabe ao certo se a relação é direta entre os resultados dessa competição microbiana e o autismo, mas indivíduos com essa doença costumam ter problemas com o metabolismo do enxofre.

Essa área da ciência, pela facilidade que as novas técnicas de estudo do DNA das bactérias permitem, está bem na moda. No entanto, como o artigo diz: “isto em si acarreta riscos.” Pode ser que toda essa importância para o microbioma que parece estar sendo cada vez mais aclamada seja inadequada, como também o foi a sua total negligência.

O fato é que o microbioma está relacionado com a nossa alimentação, com o funcionamento correto (ou não) de várias de nossas funções fisiológicas e que também pode explicar doenças aparentemente genéticas, mas que eram difíceis de identificar em nosso próprio genoma, por na verdade estarem ligadas ao genoma de nossos companheiros intestinais. Algumas dessas bactérias podem ser herdadas de mãe para filho no parto, mas outras chegam a nós diretamente pelo ambiente que nos cerca. De certa forma, podemos pensar que “herdamos” genes da mãe, sem ser propriamente dela e genes de seres que nem são da nossa espécie! Em contrapartida, poderemos tratar de doenças genéticas via o microbioma, na forma de transplantes ou de uso de antibióticos, por exemplo.

No final das contas, há cerca de 10 vezes mais células de microbianos em nosso corpo que as células propriamente nossas. Somos formados por muito mais que apenas a nossa herança biológica de nossos pais, somos um pequeno microcosmo de seres simbiontes que querem (ou preferem?) interagir de forma equilibrada conosco, mas eles precisam de nossa contribuição para isso. Certamente, no futuro, a abordagem dessa interação estará mais presente nos consultórios médicos. Talvez uma frase que venha a ser dita possa ser “Me diga que bactérias tens que te direi quem és”.

 bibliografia:

http://4.bp.blogspot.com/-zmiz1Ptcf2g/TpMANllJrzI/AAAAAAAAA1s/YEFF4wV5dsM/s1600/microbiota-diversa-de-bacterias-y-hongos.jpg – Acesso em 05/09/2012

http://www.abradilan.com.br/noticias_detalhe.asp?noticia=11913. Acesso em 05/09/2012

Após um ano, incêndio no Butantan foi considerado criminoso

setembro 6, 2011

Na semana que vem, dia 15, completará um ano e quatro meses do incêndio que causou a morte de 15 animais e a destruição do maior acervo de cobras, aranhas e escorpiões para pesquisa do mundo, o incêndio de um dos prédios do Instituto Butantan.

No dia 30 de junho ficou pronto o laudo final, que fez com que o ministério público considerasse criminoso o incêndio. Cinco pessoas, todas funcionárias e ex funcionárias do instituto foram consideradas culpadas pelo crime de incêndio culposo, sem intenção de provocá-lo, mas sendo responsáveis por ele, por imperícia ou negligência.

A provável causa do incêndio foi o superaquecimento do depósito, provocado por aquecedores inadequados, colocados próximos a diversos materiais inflamáveis como, papéis, madeira e milhares de litros de álcool. Além disso, o prédio havia sido reformado e não possuía alvará.

A coleção destruída teve início há mais de 120 anos e era referência mundial para diversos outros institutos. Mais de 80 mil serpentes, muitas delas já em extinção foram consumidas pelo fogo.  Entre os aracnídeos, aranhas e escorpiões, a baixa foi de mais de 450 mil espécies. Uma perda irreparável para a pesquisa da biodiversidade. De acordo com Francisco Franco, curador da coleção:

“Foi uma perda total e isso é uma perda pra humanidade. Desde o começo do Instituto Butantan o Vital Brasil começou a guardar cobras para serem pesquisadas. E essas cobras que foram sendo acumuladas serviam de fundamento para as pesquisas e o aumento do conhecimento da biodiversidade de serpentes. Essas cobras todas foram perdidas, hoje não temos mais nada.” 1

Imagine se sua casa sofresse um incêndio sem vitimas, mas que todas as fotos, impressas ou digitadas fossem destruídas. Você consegue imaginar qual seria essa perda? Conseguiria traduzir em valores financeiros? Agora imagine um acervo que além de ter um valor como peça de museu, é objeto de pesquisa para mestrados, doutorados e muitos outros estudos.

Pela declaração do antigo presidente do Butantã, Isaias Raw, podemos entender como algo de tanto valor pode ter sido tão negligenciado. Em 20 de maio de 2010 ele declarou ao jornal Folha de São Paulo que guardar cobras é bobagem e que a pesquisa que era feita com elas era de quinta categoria:

“Aquilo [o acervo] é uma bobagem medieval. Você acha que a função do Butantan é cuidar de cobra guardada em álcool ou fazer a vacina para as crianças?”, disse. Para ele, “não dá para cuidar das duas coisas”.2

Na mesma reportagem da folha há outra declaração de Paulo Vanzolini, o mais importante zoólogo brasileiro vivo, dizendo que a pesquisa pode ser de baixa qualidade científica, mas que a coleção tinha grande valor científico.

Não é de espantar que a ciência e os museus sejam tratados assim no Brasil. Se o país do futebol, primeiro tri campeão do mundo, não conseguiu guardar em segurança a taça Jules Rimet do tri campeonato mundial, roubada da sede da CBF e derretida, em 1983 , imagine então cuidar do acervo de um museu científico. Ainda mais quando o próprio presidente do museu acha que aquilo tudo é bobagem.

Referências:

1-  http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default.jsp?uf=1&local=1&section=Geral&newsID=a2905549.xml

2 – http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u737834.shtml

 

http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2011/06/mp-diz-que-incendio-no-butantan-foi-criminoso-e-aponta-responsaveis.html