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Interestelar, há muito tempo não víamos um filme assim.

maio 3, 2015

Demorou. Como demorou. Mas um filme assim merecia um post bem feito. Não podia ser às pressas. Se ficou bem feito, não sei. Não queria que fosse tão longo, me perdoem. Procurei fazer em tópicos, dessa forma vocês podem ler aos poucos já que estou demorando tanto para atualizar o blog.

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Referências:

Mesmo que alguns achem um absurdo a comparação,é inevitável não se lembrar de 2001 Uma Odisseia no Espaço ao se assistir a Interestelar. O absurdo se deve ao fato de que Christopher Nolan está longe de ser o genial Stanley Kubrick.

O filme foi escrito por Jonathan Nolan e inicialmente seria dirigido por Steven Spielberg, mas acabou sendo dirigido pelo irmão de Jonathan, Christopher Nolan que acabou participando também do roteiro. Christopher dirigiu a trilogia Batman (o cavaleiro das trevas), o excelente Amnésia (Memento) e o intrigante A Origem, que já comentei aqui no post: A origem: cinema e tecnologia, imaginação e arte, subconsciente e geometria, efeitos especiais e inteligência.

https://12dimensao.wordpress.com/2010/08/18/a-origem-cinema-e-tecnologia-imaginacao-e-arte-subconsciente-e-geometria-efeitos-especiais-e-inteligencia/

Nolan não escondeu as referências nas quais se baseou para a direção de Interestelar: 2001 – Uma Odisséia no Espaço (1968), Guerra nas Estrelas (1977), Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977), Alien, o Oitavo Passageiro (1979) e Blade Runner, o Caçador de Androides (1982).

O filme já está disponível para aluguel em várias mídias e para quem não assistiu, mas pretende assistir, avisarei quando for contar alguma coisa que possa estragar uma eventual surpresa (spoiler). As poucas críticas desfavoráveis que ouvi a respeito do filme podem ser resumidas em duas palavras: “cansativo” e “difícil de entender”. Ao meu ver essas são suas maiores qualidades, não exatamente isso, mas explicarei.

Geralmente filmes de ficção científica recorrem a muitos efeitos especiais, muita ação e pouco enredo ou um enredo com pouca profundidade. Interestelar, ao contrário, é longo, tem pouca ação em comparação com a maioria dos filmes do gênero. O filme tem longos diálogos e um enredo complexo que exige certo conhecimento de física, apesar das breves explicações, feitas pelos personagens do filme.

Ficção versus ciência

A dificuldade existe porque o filme aborda os efeitos da Teoria da Relatividade de Einstein e mesmo para quem já ouviu falar, não é um tema tão fácil de digerir. Ainda que você preste bastante atenção, o filme parece dar um nó em nossa cabeça. O diretor não optou pela saída fácil: simplificar demais e distorcer os conceitos para que ficassem mais compreensíveis. Preferiu deixar os conceitos o mais próximo do que a física acredita hoje, correndo o risco de que com isso o filme ficasse “mais difícil”.

Assim como no filme 2001 Uma odisseia no espaço , Interestelar contou com a consultoria de um físico. O filme de Kubrick foi baseado no livro de Arthur C. Clarke que além de escritor era físico e matemático. Clarke participou também do roteiro junto com Kubrick. Já em Interestelar a participação veio com a consultoria do famoso físico teórico Kip Thorne, especialista em buracos negros e gravitação. Thorne já havia contribuído no livro e no filme Contato de Carl Sagan, mas em Interestelar teve uma atuação mais direta, chegando a propor que o filme não tivesse nenhum erro conceitual de física e que a ficção fosse explorada naquilo que a ciência ainda não tem resposta. Thorne participou também da produção do filme.

O que acontece no interior de um buraco negro?  É possível enviar mensagens através da gravidade? É possível juntar a mecânica quântica e a teoria da relatividade obtendo uma Teoria mais geral que permita entender melhor a gravidade?

Esses são alguns dos temas explorados pelo filme de forma excelente e com um rigor científico cuidadoso. Vale a pena ressaltar que nenhum filme tem a obrigação de ser coerente fisicamente. Filmes são obras de arte e nesse sentido o roteirista e/ou diretor não precisa, de forma alguma, se preocupar com as Leis da Física, Star Wars que o diga (basta apenas que a história, seja ela qual for, seja convincente ao espectador, caso contrário estaremos diante de uma comédia, ou de um péssimo filme).

No que se refere a essa fidelidade com a ciência, Kip Thorne só não gostou das nuvens de gelo que aparecem em um determinado planeta do filme, segundo ele, seria impossível tal sustentação. Há também alguns exageros, perfeitamente perdoáveis, para manter certo suspense.

Atores e roteiro:

 

Matthew McConaghey e Anna Hathaway em cena do filme

O filme é estrelado pelos atores: Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Michael Caine, John Lithgow, todos atores experientes e com excelente atuação. Uma adorável surpresa é a magnífica atuação da garotinha Mackenzie Foy

( no papel da joven  Murphy). Há ainda a participação de um grande ator cujo nome não aparece nos

créditos e que por isso não vou revelar quem é.

Normalmente um filme de ficção científica e/ou de ação não investe tanto no elenco, quando muito há um ou dois grandes atores. Mas esse não é o caso de Interestelar, pois ele é mais um filme de drama do que de ficção científica. A ciência serve como um pano de fundo para algo muito mais importante que se desenrola na história. Talvez por isso que algumas pessoas, que foram ao cinema esperando explosões, feixes de raios lasers e disputas entre o bem e o mal, se decepcionaram.

Não que o filme seja extremamente parado, pelo contrário, há até bastante agitação, mas não comparada aos atuais filmes de ação, em que mal conseguimos respirar de tantas imagens frenéticas. Apenas para citar um exemplo, o trailer de Interestelar deixava claro que se tratava de um filme futurista, com naves espaciais e viagens entre galáxias. No entanto, o começo do filme fica a primeira meia hora em uma fazenda que parece estar ambientada na década de 50.

Em vários momentos do filme eu fiquei com a sensação de que o diretor iria se render aos clichês e encontrar uma saída fácil ou previsível para o filme, mas felizmente foram apenas ameaças. Diferente do que ele mesmo tinha feito no filme anterior,  “A origem”, em que coloca uma ação excessiva e ao meu ver desnecessária, em Interestelar a dose de ação está na medida certa e é respaldada por um roteiro inteligente.

O tema central do filme é o amor, o amor entre pai e filha. As promessas feitas e quebradas (ou não), as escolhas, a salvação da espécie humana, tudo isso envolvido em viagens espaciais e os conflitos da relação entre o espaço e o tempo.

Para falar mais sobre isso preciso contar algumas coisas sobre o filme, então aconselho a quem não o viu que pare por aqui. Não que isso faça diferença, pois o filme não tem uma “grande surpresa” no final. Não pretendo explicar a física do filme, caso existam dúvidas peço que façam perguntas nos comentários. A ideia é apenas discutir um pouco a forma como o filme trabalha bem com a Teoria da relatividade.

Lá vem Spoiler

(se ainda não viu o filme, melhor assistir primeiro antes de ler o que segue abaixo)

 A Terra está condenada, podemos perceber uma crítica velada ao uso da monocultura e às alterações climáticas. Felizmente não há grandes explicações sobre qual é exatamente o problema que está destruindo as plantações de todos os grãos de nosso planeta. Além disso, tempestades de areia imensas, como as que acontecem atualmente em Marte, são comuns.

Quando tudo parecia perdido os cientistas encontram uma saída, literalmente falando. Uma saída, não apenas de nosso planeta mas de nossa galáxia. Um “wormhole” (buraco de verme) é descoberto nas vizinhanças do planeta Saturno e através dele podemos ter acesso a outra galáxia onde alguns planetas semelhantes à Terra podem ser descobertos.

Wormhole:

 

Um buraco de verme ou buraco de minhoca é uma passagem no espaço-tempo que conecta duas regiões do espaço, como se fosse um túnel que liga duas cidades ou dois países. A diferença é que enquanto o Eurotúnel liga a França e a Grã Bretanha sob o Canal da Mancha, um buraco de minhoca “não está sob nenhum lugar do espaço”, isto é, se pudéssemos entrar em um deles estaríamos “fora do espaço”, como se fosse outra dimensão.

O nome técnico do wormhole é ponte Einstein-Rosen. Esses dois físicos previram que o espaço-tempo pode ser curvado a tal ponto que duas partes do espaço podem se conectar, mesmo estando separadas por uma grande distância.

Vamos com calma, talvez você esteja se perguntado: Mas o que é espaço-tempo?

Segundo a teoria da relatividade nenhuma informação pode se propagar mais rápida que a velocidade da luz no vácuo. Essa aparentemente simples limitação da natureza traz consequências fantásticas, já discutidas nos posts:

Viagem no Tempo – Parte I                                                    

https://12dimensao.wordpress.com/2011/03/27/viagem-no-tempo-%E2%80%93-parte-i/

Viagem no tempo  – Parte II

https://12dimensao.wordpress.com/2011/04/15/viagem-no-tempo-%E2%80%93-parte-ii/

Viagem no tempo III e Cérebro eletrônico IV: Fazendo nossa mente viajar no tempo

https://12dimensao.wordpress.com/2011/07/19/viagem-no-tempo-iii-e-cerebro-eletronico-iv-fazendo-nossa-mente-viajar-no-tempo/

Uma delas é o fato do espaço e do tempo estarem conectados formando o que chamamos de espaço-tempo. Viajar muito rápido no espaço significa também viajar no tempo, o que faz com que o tempo passe de forma diferente para pessoas que estão em referenciais diferentes.

Imagine que o universo possa ser representado por uma bexiga cheia. Dois pontos que estejam em lados opostos da bexiga estariam bem longe um do outro. Então a luz emitida por uma galáxia numa extremidade da bexiga teria que percorrer toda a superfície da bexiga até chegar do outro lado. Agora imagine que alguma coisa aperte a bexiga até que as duas extremidades se grudem por dentro da bexiga. Essa seria a ponte Einstein-Rose. Então, em teoria seria possível ir dessa galáxia a outra instantaneamente, pois dentro do womhole o tempo não passa.

Não se iludam achando que entenderam, nem se desesperem por imaginar que só vocês não conseguem compreender isso. Por mais computação gráfica que os vídeos do “Discovery Channel” usem, por mais convincentes que os cientistas sejam, ninguém consegue enxergar essa deformação do espaço.

O exemplo da bexiga (ou da cama elástica, muito usado em livros de divulgação) são apenas analogias grosseiras para nos ajudar a entender isso. Somos seres que vivem em três dimensões de espaço, não conseguimos enxergar outras dimensões por mais inteligentes que sejamos. O exemplo da bexiga é falho porque a superfície da bexiga possui duas dimensões, quando apertamos a bexiga ela se deforma na terceira dimensão, a qual podemos perceber. Um buraco de minhoca possui três dimensões e provoca uma deformação que somente seria visível a nós se fôssemos seres que vivem em quatro dimensões. Apesar de não ser possível enxergar essa deformação, a matemática fornece a certeza de que isso faz sentido.

Mesmo com a comprovação matemática, não sabemos se os wormholes realmente existem. São apenas especulações matemáticas. Além disso, a previsão é que mesmo que eles existam são microscópicos e instáveis (desaparecem em menos de um segundo).

O wormhole que aparece no filme é um tipo de wormhole calculado por Kip Thorne a pedido de Carl Sagan para o livro Contato. Aquele tipo de wormhole é ainda mais difícil de existir, ele requer condições muito especiais, mas esse é o campo da ficção e isso foi muito bem explorado.

 

Dilatação temporal.

Talvez a parte mais legal do filme Interestelar  seja aquela em que o personagem principal consegue finalmente reencontrar sua filha, mas ela está um pouco diferente. Está bem mais velha do que ele. Ao longo do filme ela deixa de ser uma garotinha para se tornar um mulher. Mas no reencontro deles, ela está com mais de cem anos e o personagem com praticamente a mesma idade. Como isso é possível?

Novamente a resposta está na Teoria de Einstein. Para viajar em alta velocidade (não estou falando aqui de meros 300 km/h de um fórmula-1, ou da “ridícula” velocidade de um caça supersônico, mas de estar próximo da velocidade da luz no vácuo, cerca de 1,08 bilhões de km/h) precisamos de grandes acelerações. Essas acelerações provocarão alterações no ritmo de passagem do tempo. Por exemplo: Quando partículas subatômicas são aceleradas em um acelerador de partículas a 87% da velocidade da luz no vácuo, o tempo de vida delas, medido por nós dobra. Isto é, algumas dessas partículas são instáveis e se desintegram (uma espécie de “morte”), dizemos então que essas partículas possuem uma vida média de “tantos” segundos. Mas ao atingirem 87% da velocidade da luz, esse tempo de vida médio dobra.

Caso as partículas consigam atingir 99,97% da velocidade da luz, seu tempo de vida médio aumenta um fator 40. Se pudéssemos atingir essa velocidade em nossos foguetes um astronauta poderia viver até 400 anos. E se a aceleração fosse ainda maior e ele atingisse 99,997% da velocidade da luz no vácuo, poderia viver mais de 1200 anos.  O mais bizarro desse efeito é que para ele o tempo estaria passando normalmente, ele sentiria a passagem de “apenas” 100 anos (tempo médio de vida que estou considerando ). Ao retornar ao nosso planeta depois de passar um ano à velocidade de 99,97% da velocidade da luz, um astronauta de 40 anos estaria com 41 anos, mas aqui na Terra teriam se passado 40 anos (Caso ele tivesse um irmão gêmeo, este estaria com 80 anos).

Isso não é “apenas teoria” como alguns gostam de falar. Isso é um fato. Há diversas comprovações de que a Teoria da Relatividade prediz de forma consistente essas dilatações temporais. Felizmente vivemos em referenciais de baixa velocidade e por isso ninguém tinha percebido esse efeito até que Einstein resolvesse publicar seus artigos em 1905.

No filme, a dilatação temporal não acontece por causa das acelerações, mas sim devido a outro efeito previsto por Einstein na sua Teoria da Relatividade Geral de 1915. Nela, ele percebe que acelerar e sofrer fortes atrações gravitacionais, são equivalentes. Nas vizinhanças de um buraco negro há um forte campo gravitacional e isso distorce o espaço-tempo da mesma forma que grandes acelerações.

 

Buraco negro

Assim como os wormholes são apenas especulações matemáticas, os buracos negros também eram até meados da década de 80. Hoje em dia a existência desses corpos celestes é quase certa, e inúmeras provas indiretas de sua existência já foram detectadas.

Antes mesmo que Einstein tivesse nascido, o genial Pierre Simon Marques de Laplace já havia pensado na possibilidade da existência de uma estrela com gravidade tão forte que nenhum corpo conseguiria sair de sua órbita, nem mesmo a luz.

Essa ideia está ligada ao conceito de velocidade de escape. Sabemos que ao jogar um objeto para cima ele retorna após certo tempo, devido à força da gravidade. Quanto mais velocidade colocarmos na saída mais tempo o objeto demorará em voltar. No entanto a força da gravidade diminui quando nos afastamos do centro do planeta. Quanto maior for a altura, menor será a força. Conclusão: se conseguirmos atingir uma tal velocidade, que o objeto consiga atingir uma determinada altura onde a força seja pequena, ele poderá escapar da gravidade do planeta. Essa é a velocidade de escape.

No caso da Terra essa velocidade é de cerca de 11 km/s, aproximadamente 40.000 km/h. Essa é a velocidade que os satélites artificiais precisam atingir para entrarem em órbita em torno da Terra. Aumentando-se a velocidade, aumentamos o raio da órbita até conseguirmos escapar totalmente da gravidade do planeta.

Laplace calculou que se uma estrela tivesse certa quantidade de matéria concentrada em certo volume, teria uma velocidade de escape maior que a velocidade da luz e assim nem a luz conseguiria escapar dessa estrela.

Concepção artística de um buraco negro

Após a Teoria da Relatividade foi possível entender como uma estrela é formada e como se dá sua “morte”. Entre alguns fins possíveis está a formação de um buraco negro. Após uma violenta explosão, o resto de matéria da estrela poderia ficar confinado em um raio tão pequeno que a gravidade dobraria o espaço sobre si mesmo, criando um buraco negro.

O próprio Einstein achou que isso provavelmente não seria possível. Mas em 1987 o astrônomo Ian Shelton e o astrônomo amador Albert Jones descobriram a primeira explosão Supernova , dando credibilidade aos modelos estelares propostos (obs.: haviam registros históricos do aparecimento de estrelas chamadas de novas ou supernovas em séculos anteriores).

Com o aperfeiçoamento dos telescópios e principalmente após o lançamento do telescópio espacial Hubble várias imagens reforçaram a certeza de que buracos negros realmente existem. No entanto como eles não permitem que a luz escape deles, não podemos detectá-los com imagens visíveis aos nossos olhos. Mas podemos perceber estrelas orbitando regiões “escuras” ou ainda percebemos a emissão intensa de raio- x , que ocorrem devido a forte atração de matéria para dentro do buraco negro.

Uma imagem ilustrativa de um buraco negro

Voltando ao filme, Gargantua é um buraco negro em rotação, que está próximo de um dos planetas a serem averiguados pelos personagens do filme. Como a gravidade próximo a um buraco negro é imensa, rodeá-lo significa ficar sujeito a acelerações monstruosas, e dessa forma sujeitos a uma dilatação temporal enorme.

Rodear o buraco negro daria a nave energia suficiente, mas causaria esse efeito indesejado, por isso essa ideia foi descartada de inicio. Mesmo assim ao entrarem no planeta que estava próximo de Gargantua, sofreram esse efeito, pois cada hora no planeta custou 7 anos da Terra. Quando retornaram a nave mãe, o cientista que havia ficado nela estava 21 anos mais velho que eles.

Após todo o problema que o ator misterioso causa, o personagem principal se vê na obrigação de orbitar Gargantua, e isso custou a ele mais várias dezenas de anos terrestres.

Ondas gigantes

Da mesma forma que a Lua cria o efeito das marés em nosso planeta, Gargantua cria marés imensas naquele planeta, o que causa ondas gigantes que proporcionam uma das cenas mais impressionantes do filme.

Hipercubo e as outras dimensões

Essa é a parte mais ficcional do filme, após ser tragado pelo buraco negro, nosso “herói” consegue sobreviver sem ser esmagado. Apesar disso ser pouco provável, Kip Thorne se baseou na mesma ideia que tinha usado para o wormhole, um tipo especial de buraco negro cuja força gravitacional atuaria somente em algumas direções, permitindo sua entrada sem o famoso efeito espaguete ( a gravidade de um buraco negro é tão forte que se nos aproximássemos dele mergulhando de cabeça, a diferença de força entre nossa cabeça e nosso pés seria tão grande que nos esticaria até nos despedaçar completamente).

A física ainda não tem resposta (e talvez nunca venha a ter) sobre o que acontece no interior de um buraco negro. A Relatividade e a Física Quântica dão respostas contraditórias sobre o que ocorre lá dentro.

Uma teoria que consiga unir esses dois pilares ainda não existe (é o que a filha de nosso herói consegue) e com isso o roteirista pôde brincar com algumas especulações matemáticas interessantes.

No filme o personagem vai parar no interior de um hipercubo. Um hipercubo é uma figura geométrica de n-dimensões. Se n = 2 temos um quadrado, n=3 um cubo, n= 4 um tesseracto, e assim por diante. Menciona-se que naquele local existem cinco dimensões, mas não dizem se isso significa 4 dimensões de espaço e uma de tempo ou cinco dimensões de espaço.

A tentativa de representar em uma tela bidimensional algo que tem cinco dimensões ficou, a meu ver, incrível. A ideia é que estando em outras dimensões podemos visualizar ao mesmo tempo vários ângulos e várias cenas.

Além disso, na teoria das supercordas (uma tentativa de unir a relatividade e quântica) acredita-se que a gravidade seja a única força física que possa transitar entre as várias dimensões. Dessa forma o personagem consegue passar uma mensagem para ele mesmo e depois para a filha só que em um tempo passado. Algo muito difícil de conceber mas que possui respaldo nas mais novas teorias científicas. A passagem linear do tempo pode ser apenas uma ilusão nossa. Talvez passado presente e futuro possam coexistir em algum “lugar”.

Finalizando?

A ideia não era explicar a física do filme. Acho que me empolguei demais e acabou ficando um texto muito longo para os dias de hoje. Mas se você conseguiu chegar até aqui agradeço a consideração e aceito de bom grado criticas e sugestões.

Espero que tenham gostado, ou que gostem do filme como eu gostei. É muito bacana quando conseguimos unir duas coisas que aparentemente parecem tão diferentes: a ciência e a arte. O pensamento racional e a imaginação.

Essas separações bobas que fazemos, acabam virando “verdades” e muitas vezes nos impedem de ir mais longe. Vamos quebrar essas amarras.

PS.: ainda poderia discutir o enredo do filme como um todo, não do ponto de vista da ciência. Mas isso é melhor quando feito em mais pessoas, fica então o poema, citado por um dos personagens, escrito pelo poeta Gales Dylan Thomas. (Obrigado Lauren).

Dylan Thomas

Dylan Thomas

Referências:

 AdoroCinema http://www.adorocinema.com/filmes/filme-114782/

Para saber mais sobre buracos negros, viagens no tempo, relatividade :

O futuro do espaço-tempo ( Stephen Hawking; kip S. Thorne; Igor Novikov; Timothy Ferris; Alan Lightman; Richard Price – Cia das Letras)

O tecido do cosmo – O espaço, o tempo e a textura da realidade (Brian Greene – cia das letras)

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Cometa Ison ainda está tímido

novembro 15, 2013

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Confesso que em fevereiro desse ano eu estava bem mais animado com a aparição do cometa ISON:

https://12dimensao.wordpress.com/2013/02/24/visitantes-no-ceu-cometa-em-2013-pode-brilhar-como-a-lua-cheia/

Finalmente chegou a chance de observá-lo, e o feriado de amanhã é um bom dia para isso. No entanto não será possível visualiza-lo sem a ajuda de um bom binóculo.

A aproximação máxima irá ocorrer entre o dia 26 e 28 de novembro, mas segundo o site abaixo ele dificilmente será visível do hemisfério sul. Resta a esperança de que  ele “sobreviva” à sua passagem pelo Sol (não colidindo com ele) e continue sua órbita.

Ainda há a possibilidade dele se tornar visível a olho nu, para isso deve atingir magnitude 6, por enquanto etá em oito. Para se ter uma ideia de quanto é isso, Sírius a estrela mais brilhante do céu  possui magnitude -1,45 (quanto menor mais brilhante, Sírius é tão brilhante que sua magnitude é negativa). A Lua cheia tem magnitude -12,6 e o Sol – 26,74. Portanto mesmo atingindo magnitude 6, não será fácil distingui-lo de uma estrela. Por isso é importante um binóculo, luneta ou telescópio, para que possamos visualizar sua calda.

Vejam mais detalhes na matéria abaixo.

Ps: meu binóculo já está na mala…me desejem sorte.

Notícia sobre o cometa ISON

Ao espaço e além!

setembro 26, 2013

 

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A NASA (National Aeronautics and Space Administration – Administração Nacional da Aeronáutica e do Espaço) divulgou informação confirmando um trabalho de Frank Mcdonald (Universidade de Maryland) e William Webber (Universidade do Novo México) que afirmaram que a sonda espacial Voyager 1 deixou o Sistema Solar em meados do ano passado (inicialmente a NASA havia contestado esse trabalho).

Isso significa que a Voyager 1 é o primeiro artefato construído por um humano que consegue escapar da influência da nossa estrela, o Sol.

A sonda foi lançada em 1977 e tinha como objetivo fotografar as superfícies dos planetas gigantes Júpiter e Saturno, como sua bateria nuclear continua funcionando e seus sistemas eletrônicos continuam enviando sinais para a Terra, a NASA vem acompanhando o destino dessa interessante nave espacial.

Voando a uma velocidade de aproximadamente 61 000 km/h, a Voyager 1 está a mais de 20 bilhões de km de nosso planeta. Para efeitos de comparação, a distância da Terra ao Sol é de cerca de 150 milhões de km, unidade conhecida pelos astrônomos como unidade astronômica ua ou au, portanto a nave está a mais de 133 ua.

Por insistência do astrônomo e divulgador da ciência Carl Sagan, falecido em 1986, a nave levou informações básicas (através de desenhos) dos seres humanos e um “mapa” da localização da Terra e do sistema solar, além de sons gravados de vários tipos (inclusive uma música do Rolling Stones). O que Sagan esperava com isso? Caso uma improvável civilização extraterrestre encontre esse artefato, poderá saber que existe um ser vivo em algum lugar do universo a procura de companhia. Sagan era um defensor de que a descoberta de vida extraterrestre seria o fato científico mais importante de todos os tempos.voyager 1 saindo

Sagan também pediu que ao chegar próximo a Saturno a nave voltasse sua câmera para a Terra e tirasse uma foto de nosso planeta a essa enorme distância. A imagem não passa de um grãozinho de poeira, perdido na imensidão do cosmo e assim Sagan apresentou em seu programa televiso “Cosmos” o que essa imagem poderia (ou deveria) gerar em nós. Creio que já coloquei aqui no blog esse vídeo, mas não me canso de assisti-lo. Então aí está, faço minhas as palavras de Sagan:

 

Viagem a marte! NASA descobre mais um risco.

junho 5, 2013
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Faz bastante tempo que não escrevo. Alguns poucos alunos me cobraram, mas nenhum deixou um comentário cobrando posts prometidos ou novas postagens. Creio que o tempo está corrido para todos.

Mesmo com essa longa pausa centenas de pessoas ainda visitam o blog diariamente, apesar de ser um numero três vezes menor do que quando publico semanalmente é bem significativo. Espero que sejam pessoas lendo as publicações antigas.

Algo que tem me chamado atenção é que o post que possui mais comentários (excetuando o post sobre lição de casa, onde pedi que os alunos fizessem comentários) é: Viagem a Marte: você teria coragem de ir? Mas é passagem só de ida! https://12dimensao.wordpress.com/2010/10/27/viagem-a-marte-voce-teria-coragem-de-ir-mas-e-passagem-so-de-ida/

Publicado em 27 de outubro de 2010, esse post recebeu mais de 50 comentários, e quase todos são de pessoas que não conheço. O engraçado é que muitas delas me escrevem dizendo que querem ir para Marte e que pedem para se inscrever, como se fosse eu o responsável pela organização da viagem.

Para essas pessoas, e para outros corajosos uma má notícia foi divulgada na semana passada: a NASA noticiou que há mais um risco a ser enfrentado nessa futura viagem. O detector de radiação instalado no robô Curiosity que foi enviado ao planeta vermelho acusou uma dose de radiação extremamente alta durante a viagem. Segundo o coordenador do estudo Cary Zeitlin, a dose acumulada seria equivalente a se submeter a uma tomografia computadorizada a cada cinco ou seis dias. Dose essa que excede os limites tidos como de segurança.

As principais fontes de radiação são os raios cósmicos oriundos de todo o espaço e as partículas ionizadas vindas do Sol. Essa radiação atinge nosso planeta também, mas nossa atmosfera e o campo magnético da Terra funcionam como um bom escudo para diminuir consideravelmente a dose sobre nós. Ainda assim a tripulação dos aviões precisa utilizar dosímetro para controlar a dose anual acumulada.

O principal problema de se expor a uma radiação tão alta é o aumento na probabilidade de desenvolver câncer. E o estudo se restringiu apenas a dose acumulada durante a ida, não está sendo contada a permanência em Marte, que deve ser de pelo menos um ano, uma vez que se deve aguardar a aproximação dos dois planetas.

Claro que em vista dos outros perigos: ir a um planeta que está a cerca de seis meses de viagem, que não possui água, alimento e nem mesmo oxigênio para se respirar, além de todo risco de uma viagem espacial, esse talvez seja o menor dos riscos.

Para saber mais detalhes:

 – Site Inovação Tecnológica – Radiação em viagem a Marte ameaça saúde de astronautas – 31/05/2013 Disponível em: http://www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=radiacao-viagem-marte-ameaca-saude-astronautas&id=010130130531&ebol=sim Acesso em 05 de junho de 2013

Jornal Folha de São Paulo: Radiação em viagem a Marte é ameaça à saúde de astronautas – 30/05/2013 – Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2013/05/1287533-radiacao-em-viagem-a-marte-e-ameaca-a-saude-de-astronautas.shtml – Acesso em 05 de junho de 2013

Contato com seres extraterrestres. Por enquanto só na ficção.

outubro 1, 2011

Ontem na aula do terceiro ano falei novamente no  livro: Contato (1997 – Cia das Letras)  de Carl Sagan e do filme de mesmo nome:
Título no Brasil:  Contato
Título Original:  Contact
País de Origem:  EUA
Gênero:  Ficção
Tempo de Duração: 150 minutos
Ano de Lançamento:  1997
Site Oficial:
Estúdio/Distrib.:  Warner Home Video
Direção:  Robert Zemeckis

Sinopse:

Durante muito tempo, Elie Arroway (Jodie Foster) tentou manter contato com vidas extraterrestres inteligentes. Deixou de lado sua vida particular e até mesmo o amor do teólogo Palmer Joss (Matthew McConaughey). Depois de anos seu sonho se tornou realidade. Com origem na distante estrela Vega, chega a Terra uma informação cifrada e Ellie é primeira pessoa a captá-la e a única disposta a seguir cegamente a mensagem alienígena. Esta é a sua grande chance de fazer contato, mesmo que para isso tenha que correr risco de vida. Emocionante, fascinante e envolvente… prepare-se para fazer CONTATO.

http://interfilmes.com/filme_12962_Contato-%28Contact%29.html

(acesso em 01/10/2011)

Sou um fã inveterado de Carl Sagan, difícil encontrar um físico que não seja, e mesmo fora do círculos dos cientistas, Sagan foi um ser humano admirado. Não vou falar mais dele aqui, pois ele merece um post a parte que estará pronto logo mais. Quero recomendar essa obra, o filme, cujo roteiro é dele e de sua esposa, e mais ainda o livro.

Como o filme foi lançado por uma grande distribuidora (Warner) ele tornou-se excessivamente comercial e muito do charme que existia no livro se perdeu. Além disso, o filme termina (não vou contar o filme, pode ficar calmo) bem antes do livro. Fica uma impressão de estar faltando algo, e está mesmo!

A história é sobre uma cientista apaixonada por seu trabalho (busca de vida inteligente extraterrestre, através de ondas de rádio). Há algo de biográfico aí, Sagan foi um grande defensor dessa pesquisa e sofreu por isso, muito desdém de outros pesquisadores. Mas a história fala também de dramas pessoais, e do grande debate, ciência e religião. Fé e racionalismo e apesar de ter sido pensada por um cientista traz uma grande reviravolta nesse debate.

Aguardo o comentário daqueles que leram o livro e/ou viram o filme.

Segue o link para o começo do filme, se quiser assistir por pelo You Tube é possível, mas tem que ser  em 15 partes, de dez em dez minutos. Recomendo que aluguem o DVD, principalmente por que tem umas imagens lindas. Ah uma provocação: Vocês entenderam esse comecinho?

Em busca do espaço – aula para os nonos anos

maio 29, 2011

Mais uma vez entrei nos nonos anos do colégio para uma aula.

A ideia é dar mostras do que é o ensino médio, quais são os desafios e o que eles podem esperar.

A aula foi sobre velocidade de escape, isto é, a velocidade necessária para que se vença a força da gravidade e entremos em órbita.

A participação dos alunos foi excelente, diversas perguntas interessantes e inteligentes.

São em momentos como esse que me pergunto se a juventude realmente não se interessa por ciência, ou se isso é apenas uma desculpa para que a TV continue a produzir  em sua maioria entretenimento de baixa qualidade.

Segue abaixo o arquivo com os slides da apresentação, que foi finalizada com um excelente video do genial Carl Sagan, no programa Cosmos, adicionada aqui também para que vocês possam entender o espirito da aula.

Em busca do espaço

 

Turismo Espacial- Já fez as malas?

abril 2, 2011

Praia? Campo? Nordeste? Europa? Orlando? Cancun? Um Safári na áfrica? Nada disso, suas férias podem ser mais inusitadas do que isso, que tal um passeio pelo espaço sideral?

Arthur C. Clarke, físico e escritor (escreveu junto com kubrick o roteiro do clássico “2001 uma odisséia no espaço”), em seu livro “O terceiro planeta” (Editora Hemus – 1979) publicado originalmente na Inglaterra em 1972, fazia previsões do turismo espacial. Já faz muito tempo que eu li esse livro, mas me lembro de algumas atrações descritas por ele para um hotel no espaço:

– Regiões onde gravidade artificial possa ser simulada, através de partes móveis que giram em uma velocidade tal que a força centrífuga faria o papel da força peso.

– A quadra de esportes permitiria várias atividades  interessantes. Imagine jogar basquete com imponderabilidade1, não há necessidade de ser Michael Jordan para realizar grandes enterradas.

– Mas provavelmente uma das maiores atrações seria a piscina do hotel. No espaço, em queda livre, qualquer líquido assume a forma de uma esfera. Teríamos não um poço com água dentro, mas uma grande bola de água, em que as pessoas poderiam entrar. Além disso, as bolhas em um líquido não subiriam como aqui na Terra, então poderiam ser injetadas bolhas de ar dentro da piscina e as pessoas poderiam entrar numa bolha dessa e conversar com algum amigo, cercado de água por todos os lados.

Clarke ainda propôs a construção de novos tipos de veículos que gastassem menos energia, e que fossem mais seguros que os antigos foguetes.

A primeira pessoa civil a ir ao espaço foi a russa Valentina Vladimirovna Tereshkova, no dia 16 junho de 1963 ela voou na apertada cápsula Vostok 6, tornando-se ao mesmo tempo a primeira mulher e a primeira pessoa civil no espaço. Foram três dias em órbita da Terra e 48 voltas em torno do planeta. Um defeito quase a fez ficar perdida no espaço, a capsula se afastava da Terra a cada volta ao invés de se aproximar. A falha foi sanada no segundo dia de vôo e ela pode regressar em segurança.

A primeira pessoa civil americana que foi escolhida para ir ao espaço no ônibus espacial Challenger foi Christa McAuliffe, uma professora de New Hampshire de 37 anos. Mas no dia 28 de janeiro de 1986 o mundo ficou chocado, pois após 73 segundos da decolagem, o ônibus espacial explodiu em frente às câmeras e da platéia que acompanhava o lançamento. Nessa época ainda não havia You tube, nem a quantidade de imagens por todos os lados, foi provavelmente a primeira vez que se acompanhou uma tragédia em tempo real. Todos os sete tripulantes morreram.

Mas esses civis não podem ser considerados turistas, pois foram convidados pelos governos Soviético e Estadunidense para participarem das viagens. Em 28 de abril de 2001, Dennis Tito, um milionário dos Estados Unidos foi o primeiro a pagar para estar a bordo da estação espacial internacional, tendo sido levado por uma nave russa e pagando a bagatela de 20 milhões de dólares à Rússia.

Apesar da relutância inicial da NASA, após Tito o caminho estava aberto, e novos turistas apareceram:

Mark Shuttleworth,sul africano, embarcou no Soyuz russo no dia 25 de abril, de 2002

Greg Olsen, outro empresário americano, no dia 1 de outubro, de 2005.

Anousheh Ansari, iraniana, empresária de telecomunicações, no dia 18 de setembro, de 2006 foi a quarta turista e primeira mulher a pagar para ir ao espaço.

O primeiro brasileiro a ir ao espaço foi o tenente coronel da força aérea Marcos Cesar Pontes, mas nesse caso não foi como turista, o brasileiro entrou oficialmente no programa da NASA, tendo sido declarado “astronauta da NASA” e tinha a missão de ir ao espaço, em 2001 como parte do programa de construção da estação internacional. Mas devido a adiamentos sua viagem acabou sendo remarcada para 2003. A explosão de outro ônibus espacial, o Columbia, fez com que a NASA suspendesse indefinidamente os programas espaciais. Assim o Brasil teve que fazer um acordo com a Rússia e pagar 40 milhões para que o brasileiro pudesse cumprir sua missão.

Com a aposentadoria dos ônibus espaciais, poderíamos achar que Arthur C. Clarke teria errado, mas o verdadeiro turismo espacial só começará  quando a iniciativa privada se ocupar dela. E parece que isso já está acontecendo. Nessa semana o repórter da BBC Richard Scott fez uma matéria onde apresenta a nave espacial Virgin, que ainda está em construção no deserto de Mojave, na Califórnia, Estados Unidos.

No link abaixo é possível assistir a um video que apresenta um trecho da reportagem da BBC:

http://www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=primeira-espaconave-privada&id=020130110401&ebol=sim

Como se pode ver pelo vídeo acima logo logo poderemos olhar a Terra lá de fora, deve ser uma vista indescritível, uma emoção e tanto. Algo comparável, talvez, a ver seu filho sorrir pela primeira vez.  Bem , na verdade digo logo logo mas com a condição de que o preço  abaixe um bocado, já que pagar R$ 330.000,00 por 5 minutos avistando a Terra pode até valer, mas prefiro investir em um belo barco e visitar algumas ilhas desertas aqui embaixo mesmo.

1- Ao contrário do que afirmam algumas  reportagens (inclusive essa do vídeo da BBC), estar em órbita da Terra, não é estar sem gravidade, pois é justamente a força da gravidade que faz o corpo ficar em órbita, se não houvesse gravidade, o corpo vagaria pelo espaço. Estar em órbita equivale a estar em queda livre. Como todos os corpos, nesse caso, caem com a mesma aceleração, temos a impressão de imponderabilidade, isto é, falta da força peso (na verdade o que está faltando é a força normal).

Fim do mundo só em 2012?

fevereiro 26, 2011

Não vou falar aqui sobre os maias e 2012, Marcelo Gleiser já fez isso com muito mais propriedade do que eu poderia fazê-lo, vejam em:

http://acervo.folha.com.br/fsp/2010/3/21/72-mais

A ideia aqui é abordar o fato de que o fim do mundo é apregoado em diversas religiões e mitos, mas pouca gente parece levar isso muito a sério.

Normalmente mantemos nosso olhar em uma escala de tempo muito estreita. Poucas são as civilizações que possuem mais de cinco mil anos. Esse tempo parece longo se comparado ao tempo de vida de um ser humano, mas na escala planetária esse tempo é só um resquício.

Dizer que nosso planeta tem 4,5 bilhões de anos não dá uma noção clara de como essa diferença em escalas é monstruosa, nesse sentido a velha comparação da evolução do universo com um ano de nosso calendário é muito boa: Imaginem que toda a história evolutiva do universo pudesse ser descrita em um ano. Os 13,7 bilhões de anos condensados em 365 dias. Cada bilhão de ano corresponderia a aproximadamente 26 dias desse tal ano, e cada segundo do mesmo seria aproximadamente 400 anos reais. Portanto se o Big Bang aconteceu no dia 1º. de janeiro, nossa galáxia (a Via Láctea) formou-se em 1º. de maio. O sistema solar foi formado apenas em 9 de setembro e a formação de nosso planeta no dia 14 de setembro. Espantosamente a vida formou-se bem rápido, logo após o início de nosso planeta, dia 25 de setembro. O oxigênio em nossa atmosfera formou-se somente no dia 1º. de dezembro, em 24 de dezembro aparecem os primeiros dinossauros, no dia 26 os primeiros mamíferos, dia 28 ocorre a extinção dos dinossauros. Acho que já deu pra imaginar que nós, seres humanos, surgiremos somente no último dia do ano, para ser mais exato no dia 31 de dezembro às 22 horas e 30 minutos. Toda nossa história, registrada a partir da escrita está contida nos últimos 10 segundos desse ano cósmico, e Galileu e Newton surgem no último segundo.

Tendo isso em mente fica fácil de entender porque achamos que a extinção dos dinossauros foi algo que ocorreu há muito tempo, coisa do passado e portanto não deve se repetir, não é mesmo?

Infelizmente a resposta é não. Quando falamos em extinção, pensamos no mico leão dourado ou nos dinossauros, poucos sabem que nosso planeta possui uma história de extinção muito maior. Na verdade Stephen Jay Gould nos conta em seu Livro “O sorriso do Flamingo” –(Martins Fontes 2004) em vários ensaios maravilhosos, como: “Sexo, drogas desastres e a extinção dos dinossauros”, “Continuidade” e “A dança cósmica de Shiva” que quando consideramos todas as extinções em massa, grandes e pequenas, elas parecem localizar-se num ciclo regular de 26 milhões de anos.

A última grande extinção foi a dos dinossauros, a cerca de 65 milhões de anos, mas essa nem foi a maior. Junto com os dinossauros houve a extinção de cerca de 45% de outras formas de vida. Segundo Gold, há registros de pelo menos cinco grandes extinções em massa, onde mais de 90% de toda forma de vida, animal e vegetal simplesmente desapareceu de nosso planeta.

A possível causa desse ciclo de 26 milhões de anos ainda é desconhecida, há várias hipóteses, mas nenhuma mais provável. Em 1979 a dupla formada por pai e filho: Luis Alvarez, físico e Walter Alvarez, geólogo, propuseram que um asteróide, com cerca de 10 km de diâmetro, chocou-se com a Terra há 65 milhões de anos (hoje se acredita que ao invés de um asteróide, um cometa teria se chocado com a Terra). A energia dessa colisão seria equivalente a detonação de milhares de bombas nucleares. Num primeiro momento teríamos uma série de catástrofes logo após a colisão: terremotos ocorreriam em praticamente todo planeta, tsunamis, chuva de rochas que foram suspensas, uma gigantesca nuvem de poeira elevaria a temperatura em centenas de graus, assando literalmente tudo que estivesse exposto ao ambiente. Após todos esses eventos, a enorme quantidade de material particulado que foi suspensa pela colisão, entra em órbita e bloqueia os raios solares, causando uma queda brusca da temperatura e impedindo a fotossíntese das plantas. Dessa forma, os poucos dinossauros que sobraram teriam morrido de fome e/ou frio.

O interessante da teoria de Alvarez é que ela pode ser testada, pelo menos em parte. Os asteróides são ricos em um minério que é raro na superfície terrestre, o irídio. Em 1981 foi encontrada no sudeste do México, na península de Yucatán uma cratera com cerca de 180 km de diâmetro, essa cratera foi chamada Chicxulub. Além do irídio, foi encontrado cristais de quartzo cuja formação indica uma enorme pressão e temperatura, aumentando a credibilidade de uma colisão colossal.

Qual a chance de um impacto como esse se repetir?

Impacto com asteróides perigosos acontecem a cada 200 ou 300 anos, em média. Em 1908 um asteróide com cerca de 40 metros de diâmetro explodiu a cerca de 15 quilômetros da Terra, devido ao calor com o atrito de nossa atmosfera. Felizmente a explosão aconteceu em Tunguska, na Sibéria, onde praticamente não há moradores. A energia da explosão foi cerca de mil vezes superior à da bomba atômica que devastou Hiroshima, destruindo uma área florestal de 2150 quilômetros, equivalente a uma cidade como Berlim ou Londres.

Ponto do impacto do meteoro que provavelmente extinguiu os dinossauros

Colisões com grandes asteróides ou cometas, de vários quilômetros como o que atingiu a Terra há 65 milhões de anos são mais raros, mas já ocorreram diversas colisões como essa ao longo da história da Terra.  Em 1993, o cometa Shoemaker-Levy 9, de cerca de 5 km de extensão, foi detectado como estando orbitando o planeta Júpiter ao invés de orbitar o Sol. Na verdade a extensão do cometa é uma estimativa, pois devido à enorme força gravitacional, o mesmo se partiu em dezenas de pedaços, alguns com até 2 km de extensão. O cometa entrou em rota de colisão com o planeta e pela primeira vez tal colisão pode ser acompanhada em tempo real. Em 21 de julho de 1994 os fragmentos do cometa atingiram a alta atmosfera de Júpiter, deixando no planeta “cicatrizes” maiores do que a Terra.

Graças a seu tamanho enorme, Júpiter acaba funcionando como um escudo para a Terra, atraindo esses perigosos cometas e asteróides para si.

Agências espaciais como a NASA e a agência européia monitoram o céu constantemente a procura de asteróides e cometas que coloquem a vida na Terra em perigo. Alguns astrônomos como, Detlef Koschny, coordenador do departamento que monitora asteróides na Agência Espacial Europeia (ESA) acredita que não devemos nos preocupar que um cometa vá cair sobre nossas cabeças, ele acha mais perigoso atravessar a rua. Segundo ele um grande cometa em rota de colisão com nosso planeta seria detectado com tempo suficiente para que possamos tentar nos defender, desviando sua rota (http://www.dw-world.de/dw/article/0,,14756447,00.html). Em termos estatísticos, Koschny está certo do risco que corremos, realmente muito mais gente morre atropelada, mas em 2009, um astrônomo amador surpreendeu o mundo noticiando uma nova mancha enorme em Júpiter, que pode ter sofrido uma nova colisão, que não foi detectada antes do ocorrido (http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,imagens-em-infravermelho-confirmam-impacto-em-jupiter,406082,0.htm).

O corpo celeste mais vigiado atualmente pela comunidade científica é o asteróide Aphopis, que em grego significa “Destruidor”. Sua máxima aproximação da Terra ocorrerá em 13 de abril de 2036, com chance de colisão extremamente baixa, de 1 em 45 mil. Baseado em estudos sobre o brilho do asteróide, os especialistas calcularam que Apophis, oficialmente chamado 99942 Apophis, mede entre 320 e 420 metros, e caso se choque com a Terra, sua massa, velocidade, composição e ângulo de entrada na atmosfera seriam suficientes para provocar uma explosão equivalente a 1480 megatons de TNT, o que representa 114 mil vezes a energia liberada pela bomba atômica lançada em 1945 sobre Hiroshima e sete vezes mais intensa que explosão do vulcão Krakatoa, na Indonésia, em 1883. Essa energia seria capaz de desintegrar completamente uma extensão de Terra do tamanho da ilha da Sicília e causar efeitos colaterais na geografia, no clima e no meio ambiente de mais de 30% do planeta.

No começo desse mês, dia 04 para ser exato, o asteróide 2011 CQ1, passou a apenas 5.480 km da Terra, quebrando o recorde de proximidade que era do asteróide 2004 – FU162 que em 2004 passou a 6.400 km da superfície do planeta. Esse corpo celeste que nos visitou nesse mês tinha somente 1 metro de diâmetro, mas devido a sua enorme velocidade poderia causar um grande estrago em algumas residências ou até mesmo em um bairro inteiro.

Que medidas podemos tomar?

(Cenas dos filmes Armagedom (em inglês:Armageddon) de 1998, do gênero ficção científica, dirigido por Michael Bay e com roteiro de Jonathan Hensleigh e J.J. Abrams e Impacto Profundo (em inglês: Deep Impact), do género drama, lançado em 1998. Direção de Mimi Leder, roteiro de Bruce Joel Rubin e Michael Tolkin).

Ao contrário do que mostraram os filmes “Armagedom” e “Impacto profundo” usar armas nucleares para destruir o cometa não é uma boa idéia. Fragmentá-lo só vai aumentar a área de impacto, mas a energia será a mesma. É necessário desviá-lo.  A forma “mais fácil” seria enviando alguma grande massa, ou ejetando massa a partir dele. Precisamos então pousar uma sonda no cometa. Já temos tecnologia para isso?

Em 4 de Julho de 2005, a sonda Deep Impact liberou um projétil em direção ao cometa Tempel 1. Foi um tiro feito a mais de 133 milhões de quilômetros de distância da Terra, e o projétil era um cilindro de cobre com um metro de diâmetro e 360 kg de massa. A sonda Stardust que já havia visitado o cometa Wild 2, passando a 326 km de distância do cometa e coletando material de sua calda, em 2004, voltou à ativa nesse ano, agora em direção a outro cometa o Tempel 1, o mesmo que foi atingido por um tiro em 2005. Com isso foi possível ver imagens do impacto provocado em 2005.

Só podemos então torcer para que a comunidade científica e a tecnologia espacial consigam, não apenas vigiar, mas também testar formas de nos proteger de colisões desse tipo. Pois ainda estamos muito longe de completar um dia no maravilhoso ano cósmico.

P.S. Ficou claro que evitei falar do risco de extinção causado por nossas próprias ações, quem sabe em outro post.

Vida diferente da nossa II – A NASA precipitou-se novamente?

janeiro 29, 2011

No post anterior (Vida diferente da nossa) abordei a descoberta da NASA de que uma determinada bactéria (GFAJ-1) parecia ter trocado o átomo de fósforo pelo arsênico na sua estrutura do DNA. O verbo parecer foi usado por mim porque no próprio artigo os autores mencionam a necessidade de confirmações dos seus trabalhos. Após o pronunciamento vários pesquisadores criticaram, não apenas os resultados do trabalho, como a forma de divulgação.

Na revista Scientific American Brasil do mês de fevereiro de 2011 saiu um excelente artigo do professor titular do Departamento de Biofísica do Instituto de Biociências da UFRGS, Jorge Alberto Quillfeldt, coordenador, desde 2003, da primeira disciplina regular de exo/astrobiologia em uma universidade pública brasileira. Neste artigo ele discute as controvérsias em torno da descoberta da NASA.

A principal critica feita à NASA foi sua divulgação pública, antes da aceitação da publicação em uma revista especializada, no caso a prestigiosa revista Science. Não se trata apenas de furo de reportagem. As revistas especializadas, do porte da Science, são extremamente exigentes com os artigos que são publicados. Quando recebem qualquer artigo, ele é enviado a um especialista da área para seu parecer, este especialista pode recomendar que o artigo seja publicado, pode sugerir alterações, ou até mesmo recomendar a não publicação do artigo. Esse trâmite todo é demorado e quando se trata de um assunto polêmico alguns pesquisadores divulgam simultaneamente na mídia em geral. Isso não é visto com bons olhos no meio científico, pois é como se os pesquisadores estivessem fugindo de um pré-julgamento. O artigo vai ser avaliado por todos antes do primeiro revisor.

Várias são as histórias de publicações bombásticas, divulgadas na mídia em geral, cujos trabalhos foram recusados pelas revistas especializadas posteriormente, ou que tiveram seus resultados contestados. Em 1989 os pesquisadores  Martin Fleischmann e Stanley Pons na  Universidade de Utah chocaram o mundo quando anunciaram uma forma simples de produzir enormes quantidades de energia, a fusão nuclear a frio (em breve vou produzir um post detalhando essa história) fato esse que não foi verificado posteriormente. O livro “A impostura científica em dez lições” de Michel de Pracontal editora UNESP, traz diversos casos de erro ou fraude na ciência.

Por que então, uma agência tão importante quanto a NASA, iria usar um artifício desse e colocar sua reputação em risco?

Na verdade não é a primeira vez que ela faz isso. Em 1996, a NASA enviou um artigo à Science, mas antes de sua aceitação foi a público divulgar que “aparentemente” tinham encontrado evidências fósseis de vida extraterrestre, em um meteorito que veio de Marte, encontrado na Antártida, o famoso meteorito ALH84001. Até hoje os trabalhos se mostram inconclusivos, não é possível afirmar se os fósseis são realmente marcianos ou se foram contaminados ao entrar em nossa atmosfera.

Segundo Jorge Alberto a NASA faz essa divulgação com grande estardalhaço, para conseguir uma maior adesão popular, e dessa forma conseguir que o congresso americano libere mais verbas para suas pesquisas. Por exemplo, após o envio das sondas Viking em 1976, a NASA ficou por mais de 20 anos sem pesquisar Marte diretamente, e após a divulgação desse suposto meteorito várias missões à Marte foram enviadas, inclusive com o envio de robôs que puderam explorar o solo marciano.

É bem provável que esse anúncio do ano passado tenha tido o mesmo objetivo, já que a aposentadoria dos ônibus espaciais, principalmente por causa do enorme custo e dos terríveis acidentes, é um sinal de que houve um bom corte nos investimentos.

Jorge Alberto qualifica como inadequada cientificamente essa atitude da NASA, mas acredita que esse tipo de pressão popular é importante para contrabalançar os gastos com ciência, dos gastos com armamento militar, em suas palavras:

“(…) parece-nos bastante apropriado que se gaste mais com ciência e menos em armas e guerras, pois o benefício da ciência se estende a toda humanidade”.

Eu concordo com ele, mas trocaria a palavra estende por pode se estender, ainda estamos longe de ter essa consciência global, os benefícios da ciência estão normalmente associados àqueles que investiram nela (grandes empresas e corporações) e que buscam o retorno, geralmente com um fator multiplicador absurdo.

Mas voltando ao trabalho divulgado no ano passado, o que está sendo contestado?

A grande dúvida é se o elemento fósforo foi realmente trocado pelo arsênico na estrutura do DNA. Vários pesquisadores acham difícil que isso tenha realmente ocorrido, e alegam que os dados fornecidos não são conclusivos.

O fósforo ocupa um lugar central no esqueleto molecular da cadeia do DNA. Se esse lugar fosse ocupado pelo arsênico, ao invés do fósforo, ele não duraria muito tempo em contato com a água. Essa é uma evidência de que não houve substituição completa, alegam os críticos.

Tirando-se a questão da divulgação precipitada, não há nada de errado em divulgar um trabalho com essas questões duvidosas. É assim mesmo que se faz ciência e é por isso que existem as revistas especializadas. São meios de divulgação de estudos, onde os cientistas podem debater, discordar, concordar, aprimorar, corrigir. Não há verdades eternas, nem estudos 100% infalíveis.

A equipe da NASA fez uma importante descoberta, que pode enriquecer bastante a questão se estamos ou não, sozinhos no universo. Mas ela (NASA) é um instituto de pesquisa como outro qualquer. Diferentemente dos times de futebol milionários, dos programas de reality show, do mundo da moda, dos orçamentos militares, esses institutos de pesquisa trabalham com ciência, cujo retorno financeiro não é sempre certeiro e pior nem sempre é visto com bons olhos pela sociedade. Quantos de vocês já não ouviram:

“Mas também, que os cientistas têm que ficar querendo saber de tudo? Que interessa saber se tem vida lá fora? Não é melhor cuidar da vida aqui de dentro?”

Esse tipo de raciocínio estreito é muito comum infelizmente, não vou respondê-lo agora, ou melhor, segue outro tipo de resposta:

“… quando a ignorância é felicidade,

é loucura ser sábio.”

Thomas Gray

Bibliografia:

Quillfeld, J.A. Controvérsias em torno das bactérias arsênicas – Scientific American Brasil ano 9 n 105 – paginas: 64 a 69.

Viagem a Marte: você teria coragem de ir? Mas é passagem só de ida!

outubro 27, 2010

Uma viagem a marte, mas sem retorno.

A ficção errou! Os marcianos não nos atacaram, nós é que vamos ocupar o planeta deles.

Paul Davies é físico, escritor e divulgador de ciência, conhecido internacionalmente e ganhador de diversos prêmios graças a seu trabalho de divulgação científica. Escreveu dezenas de livros e agora junto com Dirk Schulze- Makuch, da Universidade de Washington,  publicou um artigo na revista científica Journal of Cosmology, chamado To Boldly Go: A One-Way Human Mission to Mars – Para Audaciosamente ir: Uma Missão Humana sem Retorno a Marte, em tradução livre.

A ideia deles é enviar uma missão tripulada a Marte, mas sem retorno. Com isso dois objetivos seriam atingidos: Reduzir drasticamente os gastos e assim tornar viável uma missão ao planeta vermelho,  em um tempo não muito distante, e começar a colonização humana extraterrestre.

Marte - O planeta vermelho

As viagens espaciais são extremamente caras, e quando tripuladas os custos sobem exponencialmente, para garantir a sobrevivência dos astronautas.

Se uma ida até a Lua, já não é nada tão simples, ir à Marte é muito mais complicado. Enquanto a viagem a Lua demora em torno de 3 a 4 dias. A ida até Marte leva 6 meses, com a tecnologia atual. E o pior, a volta pode demorar um ano e meio. Isso porque não podemos esquecer que os planetas se movem em torno do Sol. Por isso o lançamento de ida deve acontecer quando os dois planetas estão bem próximos. Essa nova proximidade só voltará a ocorrer um depois.

Davies, Schulze- Makuch  imaginam que se a viagem for só de ida, os gastos seriam extremamente reduzidos, pois a nave não precisaria de tanto combustível e suprimentos. A ideia deles é mandar duas espaçonaves com dois tripulantes em cada uma. Outras naves não tripuladas seriam lançadas de tempos em tempos enviando suprimento. Enquanto os colonizadores começariam a criar as condições adequadas à sobrevivência humana no planeta vermelho.

A colonização extraterrestre não é fruto de um desejo maluco e excêntrico, muito pelo contrário. Apesar de ainda termos bastante espaço aqui na Terra, não podemos deixar de perceber que a ocupação humana acaba  trazendo impactos ambientais que se voltam contra nós mesmos. Há um motivo ainda mais importante: A continuidade da raça humana.

Extinção em massa não é apenas roteiro de filme de Hollywood. O grande paleontólogo e  divulgador de ciência Stephen Jay Gould nos conta em seu livro: O sorriso do flamingo – (Editora Martins Fontes) que nosso planeta já passou por inúmeras extinções em massa, sendo a dos dinossauros, apenas mais uma. E há registros de pelo menos 5 grandes extinções, onde mais de 90% de toda forma de vida, animal e vegetal foram extintas.

Não estamos, portanto, livres de uma extinção, seja ela provocada pela colisão com um grande meteoro ou cometa, por uma pandemia global, ou até mesmo por causa humana, como uma hecatombe nuclear. A colonização do espaço é portanto uma tentativa de preservação da nossa espécie, e Marte é uma boa opção.

Marte tem uma aceleração da gravidade parecida com a nossa. Também possui atmosfera, não como a nossa, mas suficiente para criar um efeito estufa que possa garantir uma temperatura média adequada, condizente com a vida humana. Além disso, o planeta é rico em minerais, dióxido de carbono e provavelmente água.

Os autores deixam claro que os astronautas devem ser voluntários, pois seu retorno à Terra será remoto e mesmo sua sobrevivência não estará assegurada.

Apesar da ideia parecer maluca, não podemos nos esquecer que os grandes exploradores do passado viveram aventuras muito parecidas como essa. Principalmente aqueles que atravessaram grandes distâncias, como Américo Vespúcio, Cristóvão Colombo e Cabral. Além desses grandes descobridores, os colonizadores das Américas também vinham para cá, enfrentando perigos enormes, não apenas durante a viagem, mas aqui no novo mundo.

Se esta colonização der certo teremos que enfrentar questões parecidas como a dos primeiros colonizadores, claro que guardadas as devidas proporções. No mundo de hoje a telecomunicação é espantosa. Não levamos mais horas para conseguir um ligação  interurbana. E quase tudo em tempo real. Até a rotina de mineiros presos a 700m abaixo da terra por 2 meses pode ser transmitida.

Mas a comunicação com moradores em Marte não será tão fácil, pois a velocidade da luz é grande, mas é finita. O planeta está tão distante da Terra, se comparado com a Lua, por exemplo, que a luz pode levar mais de 10 minutos para chegar a Marte (já para a Lua, a transmissão demora apenas 1,5 segundos). Dessa maneira uma comunicação em tempo real seria mais entediante que as comunicações na internet nos primeiros modems de 14400 kbps. Imagine você fazendo uma pergunta e após mais de 20 minutos vem a resposta: “ O que? não entendi, pode repetir?”

A proposta é ousada, mas bastante plausível. Ao comentarem com seus colegas cientistas, vários argumentaram que gostariam de ser voluntários. O próprio Schulze- Makuch  disse que seria o primeiro voluntário, mas entende que até que a missão fique pronta para partir ele já não terá mais idade para o embarque.

Bom eu gostaria muito de ir ao espaço, mas quero ser trazido de volta, prefiro o céu azul ao vermelho. (Claro que o medo de avião não  influencia na minha recusa).

Bibliografia:

To Boldly Go: A One-Way Human Mission to Mars
Dirk Schulze-Makuch, Paul Davies
Journal of Cosmology
October-November, 2010
Vol.: 12, 3619-3626
http://journalofcosmology.com/Mars108.html

http://www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=cientistas-propoem-viagem-sem-volta-marte&id=010830101025