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Tecnologia e Educação

janeiro 27, 2012
No dia 12 de dezembro de 2011 o jornal Folha de São Paulo publicou no caderno The New York Times o texto “Questionando a tecnologia como professor” de Kevin Delaney. Fiquei feliz ao ler esse artigo, pois ele aponta discordância nesse modismo que é acreditar que melhorar o ensino é investir em tecnologia, principalmente na área da informática. Segundo o texto até mesmo Steve Jobs e Bill Gates concordaram que os computadores tinham tido até agora, pouco impacto nas escolas.

Outra citação interessante do texto, que eu concordo plenamente:

“Ensinar é uma experiência humana”, disse ao Times Paul Thomas, professor associado de educação na Universidade Furman, na Carolina do Sul. “A tecnologia é uma distração quando precisamos de alfabetização, raciocínio matemático e pensamento crítico.”

É claro que uma escola bem aparelhada pode facilitar e diversificar o tipo de aula para o professor. Com diversos recursos como: datashow, rede wirelles, lousa digital, tablets, etc. Mas tudo isso são apenas “ferramentas”. Elas não fazem o trabalho sozinhas. E não digo isso para concluir que o problema é que os professores não estão capacitados para usarem esses recursos. Eu garanto a vocês que aprender a usar qualquer um desses recursos é muitas vezes mais fácil do que aprender física, matemática, história, literatura, enfim qualquer disciplina de nosso currículo. Um grave problema da educação é que temos muitos professores com formação deficiente na própria disciplina que ele ministra.

Outro grave problema é que a cada dia os alunos vão se tornando cada vez mais desinteressados. E aí entra a falácia: “Com esses recursos os alunos vão ficar mais estimulados, pois terão um aprendizado mais moderno, mais desafiador, mais parecido com o mundo atual.” Ledo engano. Os alunos não estão desinteressados pela lousa e pelo giz. Estão desinteressados pelo SABER. Esses recursos não vão tornar as aulas “mais interessantes” para um aluno que não valoriza o conhecimento. Ele vai querer usar o tablet para acessar o facebook ou o youtube e não para rodar um software educacional.

Para melhorar a educação devemos começar em casa, incentivando nossas crianças a valorizarem o conhecimento, que não é a mesma coisa que valorizar boas notas. Todo pai e mãe se consideram um bom incentivador da educação do filho, pois dizem pra ele estudar, às vezes até o obrigam a fazer as lições. Mas muitos desses pais, quando estão de frente à TV são incapazes de assistir a um programa cultural da TV Cultura. Quantos não assinam canais pagos e continuam viciados em novelas e programas imbecis? Quantos dão livros de presente e incentivam a leitura, procurando ler também e trocar informações com as crianças?

Numa sociedade voltada ao consumo, equipar uma escola com todas essas tecnologias parece, muitas vezes, se render a essa lógica do consumo: “Minha escola precisa adotar os tablets, pois aquela outra escola também adotou.” Como um adolescente que “precisa ter” um modelo novo de celular.

Delaney continua seu artigo citando Alan Eagle, que trabalha na Google: “Na Google e em todos esses lugares fazemos tecnologia tão fácil de usar quanto possível, não há motivo para que as crianças não consigam aprendê-la quando ficarem mais velhas”.

Delaney menciona que a Coréia do Sul está gastando dois bilhões de dólares para modernizar ainda mais sua educação digital até 2015, e que seus alunos se classificam nos níveis mais altos em matemática e ciência em todo mundo. Mas que o preço por isso pode ser caro, pois as crianças coreanas estão exaustas e estressadas e alguns educadores temem que o ensino por repetição, reforçado pelos computadores, esteja produzindo estudantes menos criativos.

No lado oposto está a Finlândia, que também é superinformatizada e cujos estudantes também alcançam o topo dos testes globais, mas diferentemente da Coréia as escolas tem muito pouca tecnologia e os estudantes não são tão pressionados. “Eu não vi um só estudante com um laptop” afirmou o diretor do colégio Brookfield de Connecticut, ao visitar a Finlândia em 2011.

Delaney não é ingênuo e sabe que há vários fatores além desses. Ele termina dizendo que na Finlândia quase não tem pobreza e que os professores são muito bem pagos e altamente respeitados. Sua última citação de um diretor do departamento de educação de Nova York: “certamente há oportunidades que podem ser captadas por meio da tecnologia, mas no centro da educação está a relação entre professor e aluno”.

Parece um contras senso que eu sendo professor de Física e Tecnologia Moderna do Colégio Oswald e professor em uma faculdade de engenharia me posicione contra a tecnologia na educação. Na verdade não sou contra o uso da tecnologia, ao contrário, permito que os alunos da faculdade usem câmeras de vídeo para filmar a aula, sem nenhum problema. Isso facilita pois podem se concentrar melhor na explicação, sem a preocupação com a cópia da lousa. Também fico feliz de estar em uma sala de aula que já possui um datashow instalado e melhor ainda se tiver conexão com a internet. O que estou afirmando é que não podemos nos render ao modismo e ter em mente que esses recursos são apenas ferramentas.

É ótimo ter boas ferramentas, mas é IMPRESCINDÍVEL um bom ferramenteiro e uma boa matéria prima para se trabalhar.

Vamos concentrar nossas forças e nossos recursos em melhorar a formação do professor e valorizar mais o conhecimento.

Em tempo:

1) Durante a apresentação deslumbrante, para professores do interior do Ceará, das maravilhas que se podia fazer com uma lousa digital, um professor levanta a mão e pergunta: “O que eu faço com essa lousa se acabar a luz?”

2) “MEC quer tablets nas escolas, mas programa anterior que entregou laptops chegou a menos de 2% dos alunos”

http://educacao.uol.com.br/noticias/2012/01/30/mec-quer-tablets-nas-escolas-mas-programa-anterior-que-entregou-laptops-chegou-a-menos-de-2-dos-alunos.htm

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