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Os livros de auto-ajuda do investidor econômico

julho 28, 2010

A física e a economia são áreas muito parecidas. As duas usam a matemática para resolver problemas, uma delas problemas naturais, a outra problemas do mercado financeiro. Assim resolvi postar aqui um artigo antigo que tinha escrito mas nunca publicado. Me desculpem se ficou muito longo.           

  Os títulos são os mais variados, criativos e chamativos. Muito parecidos com aqueles que prometem o emagrecimento fácil, ou a felicidade eterna, que ensinam como manter uma relação a dois e os segredos do sucesso.

            Por que escrever um artigo contra esse tipo de leitura? Qual o mal de um pensamento positivo? Alguém está se prejudicando ao acreditar neles? Bem, a resposta não é óbvia, não é simples como parece. Muitas questões que, vistas superficialmente, parecem simples, se observadas de outro ângulo, ou de modo mais amplo, apresentam-se parte de uma rede muito mais complexa, cheia de nós e interligações.

            Claro que você pode achar que eu estou procurando chifre em cabeça de cavalo, pêlo em ovo, ou me deixando levar pela teoria da conspiração.  Mas então estarei esperando sua crítica e estaremos debatendo, usando a lógica e o raciocínio – e este artigo já terá valido a pena.

            O perigo dos livros de auto-ajuda não está somente no fato de eles enganarem as pessoas. Há uma ação deletéria muito maior, que até mesmo o próprio autor pode ignorar. Uma ação de longo alcance e, por isso mesmo, não prejudicial a uma única pessoa, mas a toda nossa sociedade.

            O que vou falar tem a ver com os livros que incentivam o sucesso financeiro, mas poderia ser aplicado a outros tipos de auto-ajuda.

Senti-me motivado a escrever este texto quando descobri, entre meus alunos inteligentes, fãs fervorosos de obras que têm uma visão deturpada do que é economia, do que é um investimento e, pior, do que é o trabalho. Todas elas vêem o trabalho como um martírio, uma obrigação enfadonha que não leva a nada, um obstáculo para o sucesso. A expectativa é obter um capital inicial e começar logo a pôr em prática o que se aprendeu nos livros e enriquecer sem trabalhar, viver de renda, viver do investimento feito.

            Estes livros são escritos, em sua maioria, por “pessoas de sucesso”, gente que se deu bem financeiramente e agora resolve ajudar o próximo ensinando os passos iniciais, mostrando o caminho das pedras. Vamos primeiramente questionar sua eficácia quanto a isso.

            Digamos que um grande esportista atual escreva um livro contando sua carreira de sucesso – por exemplo, um grande jogador de futebol. Ele poderia dizer que sempre gostou de futebol desde pequeno, que começou a jogar logo cedo em escolinhas, que daí então foi fazer um teste em um time grande, começou nas categorias de base, teve oportunidade para participar de um torneio juvenil, foi observado por um olheiro de um grande time e acabou sendo comprado e finalmente revelado ao mundo quando teve chance na seleção brasileira. Uma carreira de sucesso. Hoje, tem renda anual de 6 dígitos. A questão é: se o leitor seguir os mesmo passos desse jogador alcançará o mesmo sucesso? Quais as chances de a mesma história se repetir exatamente da mesma forma?

            Procure em institutos de pesquisa quantos jovens ingressam em categorias de base e quantos efetivamente conseguem ser contratados por um grande clube.

            Não estou querendo aqui desmotivar ninguém, muito pelo contrário. Acredito que devemos lutar pelos nossos sonhos e tentar vencer todas as barreiras que aparecem. É nisso que acredito e não que alguém possa chegar ao topo (que é já algo questionável: que topo é esse?) sem esforço ou trilhando atalhos indicados por outra pessoa que chegou lá. Claro que dicas são bem- vindas. No exemplo do jogador pode ser mencionado problemas que ele enfrentou no decorrer do seu caminho como empresários oportunistas, clubes que não respeitam os direitos dos jogadores, etc. Mas essas dicas podem ser obtidas em livros biográficos do jogador.

            Portanto não acredito na eficácia desses livros do caminho do sucesso. A trajetória de alguém pode no máximo servir como um incentivo a outras pessoas, mas nunca como uma receita ou como “o mapa da mina de ouro.”

            O historiador e antropólogo italiano Carlo Ginzburg escreve em seu livro “ O fio e os rastros”:

O grande sinólogo francês Marcel Granet disse certa vez que “la méthode, c´est La voie après qu´on lá parcourue”, o método é o caminho depois que o percorremos. A palavra “método” deriva efetivamente do grego, mas a etimologia proposta por Granet – meta-hodos, depois do caminho – talvez seja imaginária. Em todo caso, a tirada brincalhona de Granet tinha um conteúdo sério, ou melhor, polêmico: em qualquer âmbito científico, o discurso sobre uma pesquisa concreta, e não quando se apresenta (o que é de longe, o caso mais freqüente) como uma série de prescrições a priori. Espero que o relato que vou fazer sobre o modo como a minha pesquisa nasceu e se desenvolveu possa fornecer uma confirmação, em si mínima e insignificante, à irônica afirmação de Granet[1]

            Ginzburg continua argumentando que ao se contar o percurso de uma trajetória quando já se sabe a conclusão, podemos cair no risco de passar uma impressão de que o caminho já estava pronto, um destino com um final esperado. As incertezas e erros do caminho geralmente são suprimidos.

            Um outro problema, e este considero bem mais grave, é a deturpação do conceito de trabalho. Conversando com uma aluna do curso básico de engenharia, perguntei qual modalidade de engenharia ela iria seguir. Ela respondeu “engenharia de produção”, mas acrescentou que provavelmente não atuaria como engenheira, pois seu desejo era ser uma investidora. Conversando mais descobri que ela havia lido um destes livros e estava empolgada pois sabia como ganhar muito dinheiro. Um outro aluno do ensino médio, muito inteligente, com condições muito boas de ingressar numa excelente faculdade está há seis anos sem estudar pois não acredita que a faculdade seja o melhor caminho para um futuro promissor. Ele não acredita em fazer carreira profissional. Este aluno é um devorador voraz desses livros, já leu vários deles. E está à procura de um trabalho que possa lhe render um dinheiro inicial para aplicação.

Estes não são casos isolados. Quando digo a esses alunos que dinheiro não gera dinheiro eles ficam admirados da minha ignorância e tentam me explicar como funciona a bolsa de valores. São pessoas inteligentes, que tiveram uma boa formação escolar, mas possuem uma visão muito curta sobre economia e processos de produção. Claro que você tendo um capital inicial pode multiplicar este capital investindo em ações ou aplicando em outras modalidades. Mas o dinheiro é apenas uma base de troca. Se não houver a produção de um bem, não haverá ganho real, apenas transferência de um para o outro e neste caso se alguém ganha é por que alguém perde.

Este artigo não é sobre economia e não há espaço aqui para se estender mais sobre o assunto, mas esta ilusão de dinheiro sendo gerado é muito preocupante. A riqueza de uma sociedade vem do trabalho desta sociedade, dos meios de produção. Numa explicação rápida e portanto superficial, investir em ações de uma empresa significa  aumentar o capital desta empresa e com isso permitir que ela possa produzir mais e assim ter a chance de aumentar seus lucros, o que se for efetivado se traduz em valorizar suas ações e com isso o lucro está sendo dividido entre os acionistas. Mas é óbvio que esta não é uma relação de causa-efeito direta. Muitos fatores estão relacionados na maior produtividade e maior lucro de uma empresa. Há sempre um risco neste investimento e por isso a obtenção de lucro através de investimento em ações é para quem tem capital para bancar esse risco.

Enriquecer somente investindo significa que ou a pessoa tinha uma outra fonte de renda para lhe dar segurança ou deu muita sorte. Ela arriscou, não como numa loteria, mas como num jogo, em que você pode conhecer as regras básicas e se sair melhor ou pior. Isto os livros não falam, pois atribuem a sorte que tal pessoa de sucesso conseguiu a outras qualidades como: esforço, dedicação, perseverança, esperteza. Com isso fica fácil o sucesso, uma vez que, se não der certo, a culpa é do leitor que não tinha motivação suficiente.

Acreditar que alguém sem capital possa fazer carreira somente investindo, “deixando que o dinheiro trabalhe por ele”, para citar um de meus alunos, é muita inocência[2]. Mas esta é uma inocência preocupante, pois traz junto uma visão de trabalho como algo que é um tremendo sofrimento para prover a subsistência, um tempo gasto que poderia ser investido em muitas coisas mais “legais”.

Esta visão de trabalho está completamente equivocada. Eu adoro meu trabalho e não consigo me imaginar sem ele. As pessoas devem procurar trabalhar naquilo em que se sentem bem. É claro que muitas pessoas exercem tarefas que não podemos sequer considerar como trabalho, mas isto é um efeito e não causa. O capitalismo implica numa massa de trabalhadores desempregados ou subempregados por princípio e isto deve ser combatido e não aceito passivamente.

Incentivar que jovens apliquem seu potencial, sua inteligência e vontade em meros investimentos é fazer parte de um sistema individualista e cruel. Um sistema que só faz aumentar a desigualdade social e põe em risco nossa própria continuidade nesse mundo como espécie.

Em minha opinião, jovens que gostam de finanças devem ser incentivados, mas para estudarem economia, história ou política. Eles devem ser atuantes e não meros reprodutores de um sistema. Dotados de uma grande inteligência, podem se aproveitar dela para garantir um futuro promissor, isto não é condenável da perspectiva individual, mas vivemos em sociedade e se todos procurassem viver assim? Tirando vantagem, especulando, não se importando se uma empresa vai mal e muitos vão ficar desempregados. O que importa é que  o preço das ações vão baixar e ele poderá comprar em baixa para vender em alta. Como educador e portanto agente de transformação, não posso incentivar este tipo de comportamento.

É neste sentido que digo que estes livros possuem uma ação deletéria. Além de trazerem uma falsa esperança para a maioria, fazendo com que os leitores acreditem que descobriram uma fórmula mágica, atalhos que permitirão o sucesso de forma rápida e sem esforço, incentiva a reprodução de um sistema que transforma pessoas inteligentes em reprodutores de fórmulas duvidosas e mesmo perversas.

Não condeno os livros de auto-ajuda. Eles são somente livros e do meu ponto de vista fazem o mesmo papel de programas televisivos que eu acho ruins. O problema está na proliferação, no endeusamento deles como se fossem a última palavra em comunicação. Claro que isto se deve a uma ignorância. Ignorância sobre muitos aspectos, econômicos, históricos, políticos, psicológicos.

Tenho esperança de que um dia, ao entrar nas grandes livrarias, encontrarei esses livros numa estante específica para eles e não nas seções dos mais vendidos. Talvez fosse um sinal de que as mudanças estariam chegando. Pois é, por ora não estão.


[1] GINZBURG, CARLO  – O fio e os rastros. São Paulo. Companhia das Letras, 2007, p. 294-295.

[2] Na verdade meu aluno citava um lugar-comum de uma das mais famosas dessas obras de auto-ajuda – descobri isso quando pude, eu mesmo, ler um resumo do livro em questão (Pois é, achei que seria mais coerente criticar algo que eu conhecesse, mesmo que indiretamente).

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