Posts Tagged ‘seriados sobre física’

Quem quer ser um nerd?

novembro 25, 2012

Há não muito tempo, ser um nerd, CDF, como se dizia, era sinônimo de ser um excluído socialmente, alguém não muito invejado e normalmente ridicularizado pelos “colegas” de escola.

Hoje a situação parece ter mudado, ou está mudando. Talvez pelo “sucesso profissional” de Bill Gates e Steve Jobs, ou porque se percebeu que os nerds costumam se “dar bem”, não sei. Só tenho certeza que não é por valorizar o conhecimento, o que em minha opinião seria o desejável.

A percepção dessa mudança surge do comportamento dos meus alunos e de filmes e seriados que assisto (não mencionarei filmes ou seriados de ficção cientifica, pelos motivos óbvios). Confiram comigo:

MacGyver – Profissão perigo: Este ainda é da década de 80, MacGyver era capaz de transformar um cactos numa antena parabólica transmissora e receptora de ondas de radio. Deter o vazamento de um galão enorme de ácido sulfúrico usando barras de chocolate, e muito mais. Quando comecei a fazer física ele era motivo de piada, pois os exageros eram medonhos. Mas ele era um diferencial numa época onde os mocinhos geralmente utilizavam os músculos ou artes marciais, MacGyver usava o cérebro.

Lost: Apesar de vários personagens carismáticos e todos muito importantes para a série, foi Jack (um médico) que a maioria dos sobreviventes do avião elegeu como líder.

Dexter: Um nerd de laboratório (perito policial, especialista em análise de sangue, não apenas na análise química, mas também em toda física do espalhamento, respingos, tipos etc) é o protagonista da série. Mesmo sendo um serial killer, Dexter nos cativa e torcemos por ele (a desculpa de que ele só mata outros assassinos não é uma boa justificativa).

Criminal Minds: Um bando de agentes do FBI, especialistas em comportamento humano, traça o perfil dos criminosos ajudando a polícia a capturá-los. Todos ali são nerds, mas o maior deles sem duvida é Reid, o cara é muito fera, verdadeira enciclopédia humana além de gênio em quase tudo. Portanto, um personagem de destaque.

Breaking Bad: Um professor de química é o protagonista dessa série. Pai de um filho adolescente deficiente e, com a casa hipotecada e ainda com a esposa grávida, descobre que está com câncer terminal e resolve ganhar muito dinheiro fabricando metanfetaminas.

The Big Bang Theory: o máximo da caricatura dos nerds. Quatro cientistas, três físicos e um engenheiro espacial convivendo com uma linda loura. Apesar dos exageros é muito inteligente e engraçado e pelo que vejo faz muito sucesso entre meus alunos.

Iron Man (Homem de ferro): O famoso herói é um dos mais carismáticos do gênero, talvez porque logo no primeiro filme já tira sua mascara e mostra a todos quem ele é (Tony Stark), um famoso milionário com Ph.D. em física e engenharia elétrica pelo MIT.

Homem aranha: É o típico nerd que sempre se dá mal, mas quando ganha seus super poderes consegue se tornar um herói bastante admirado pelas crianças (a maioria dos homens adultos não é muito fã do homem aranha).

Numb3rs: Mais uma série, nessa um matemático ajuda seu irmão, que é do FBI a resolver casos.

Fringe: Mais uma vez o FBI precisa da ajuda de um cientista que ajudá-los a desvendar os mistérios da série e é claro que o cientista acaba roubando a cena, ou melhor a série.

Com certeza a lista está incompleta, peço então a ajuda de vocês para aumentá-la.

Alguns dessa lista estão mais para anti-heróis do que para heróis, já que fazem contravenções, crimes, mas não acho que seja por isso que a visão do nerd está mudando. Talvez isso não passe de uma leve impressão minha. Talvez seja somente uma flutuação estatística e logo-logo a coisa volte ao que era antes. O que vocês acham?  Por favor, nerds e não nerds manifestem-se

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LOST:QUANDO A FICÇÃO ENCONTRA A FÍSICA.

abril 6, 2010

Quando entrei na graduação de Física quase todos meus colegas eram fãs do seriado Star Trek (no Brasil Jornada nas estrelas). Particularmente eu era exceção, não porque não gostasse, mas porque o horário do seriado coincidia com o da novela e minha mãe não abria mão de assistir ao teledrama.

Hoje a TV a cabo possui vários seriados que fascinam amantes da ciência ou de ficção cientifica. A comédia  “The Big Bang theory” traz no próprio nome a referência de uma teoria da Física. CSI: Crime Scene Investigation (no Brasil CSI: Investigação Criminal) é um show de efeitos especiais e usa várias áreas da ciência para desvendar crimes.  Mas a sensação do momento nos últimos anos é Lost. Mistérios não faltam naquela ilha e as explicações para os mesmos têm levantado as mais variadas discussões em fóruns, blogs, twitter, Orkut e rodas de conversas.

É bastante claro que a intenção dos autores é mesclar mistério, ficção e ciência. Eletromagnetismo, viagens no tempo, armas  nucleares, professores de Química e até uma referência direta a um dos maiores físicos experimentais, Michael Faraday, que empresta seu sobrenome a um dos personagens, Daniel Faraday, que não por acaso é um físico que vai parar na ilha em busca de testar suas teorias. Agora, na última temporada da série mais uma área exótica da Física: os universos paralelos.

O seriado conquistou muita gente, aficionados ou não de ciência. Muitos alunos vêm me perguntar sobre a física de Lost e até propor uma aula sobre a série, pois acreditam que a Física possa responder aos inúmeros mistérios da ilha, inclusive a enigmática fumaça preta que desde a primeira temporada intriga a todos.

Em 2008 o seriado foi abordado à luz da Física moderna no trabalho de tese do Colégio Oswald de Andrade  intitulado Física não é só para nerds.  Os rótulos atribuídos àqueles que se dedicam à ciência. Apesar de ser um trabalho do ensino médio,  a aluna Maria Fernanda Sader Basile discute as relações da Teoria da Relatividade e da Física Quântica com os mistérios da ilha. A abordagem do trabalho não era sobre o que está errado ou certo no seriado, até porque o seriado não tem nenhuma obrigação de ser fisicamente correto, a crítica foi sobre o pré-conceito que os amantes da ciência sofrem, como se gostar de Física ou Matemática fosse sinônimo de pessoas que são completos bitolados como mostram alguns filmes caricatos. Em Lost é possível perceber como a ciência pode ser instigante e desafiadora, como um suspense de Hitchcock.

Uma crítica que pode ser feita ao seriado é o uso que se faz do eletromagnetismo. No final do século XIX, quando o mundo começava a conhecer as aplicações do eletromagnetismo, muitos fenômenos dessa área da Física eram apresentados como números de mágica ou atrações circenses. Estranhamente parece que esse modismo voltou. Palmilhas magnéticas, colchões magnéticos, garrafas térmicas magnéticas, e até calcinhas magnéticas são anunciadas para venda. O magnetismo parece estar associado a milagres impressionantes. O manual da garrafa magnética, por exemplo, diz que o magnetismo quebra as moléculas de água e com isso propriedades terapêuticas são obtidas. Bem, confesso que não sei se é possível quebrar as moléculas de água usando campos magnéticos tão fracos quanto os produzidos pelos ímãs da garrafa, mas, ainda que isto seja possível, quando estou com sede quero beber água (H2O com sais minerais) e não uma molécula de água “quebrada” (o que seria uma “molécula quebrada” de água? Hidrogênio? Oxigênio? Água oxigenada? Na dúvida fiquei com meu filtro de barro mesmo).

Por ser uma série tão inteirada com as novidades científicas, achei estranho que os autores de Lost fizessem uso justamente do eletromagnetismo como fonte de energia para provocar as viagens no tempo e outros efeitos. Autores tão imaginativos deveriam ter buscado inspiração em outras fontes de energia, mas, como já disse, o seriado é uma ficção e, portanto, não possui nenhum compromisso com as verdades científicas.

Apesar deste detalhe, a série é muito intrigante, principalmente pelas amarrações que vão acontecendo entre os personagens desde a primeira temporada. Parece que o sucesso da série foi tanto, que os autores decidiram adicionar mais uma temporada. Com isso algumas amarrações ficaram embaralhadas e confusas. A expectativa agora é saber se eles vão conseguir atar esses nós e ainda por cima solucionar todos os mistérios.  Mas para mim o principal já foi conseguido, mostrar que a ciência, principalmente a Física, não precisa ser enfadonha e cheia de fórmulas incompreensíveis. Ainda que o seriado não seja sobre ciência, ela serve como um pequeno pano de fundo para uma aventura instigante.

Um dos capítulos de que mais gostei foi o episódio 5 da quarta temporada, quando o personagem Desmond está enlouquecendo pois sua mente está viajando no tempo. Ele fica revendo momentos do passado juntamente com o presente e isso vai levá-lo ao colapso. Segundo o físico Daniel Faraday, sua única chance é encontrar uma constante para deter as viagens. Desmond então conversa por telefone com sua amada Penny e assim consegue estabilizar-se no presente. Achei genial a idéia de ser necessária uma constante para frear as viagens incessantes que caminhavam para o infinito. Na teoria do caos existe algo assim: são os chamados atratores, pontos para os quais uma série infinita pode convergir. Não importa se os autores tenham se inspirado nisso ou não, o que importa é que a forma como eles criaram esse episódio foi muito emocionante.

Arte e ciência vivem se encontrando e flertando uma com a outra. Ainda que tão diferentes na forma de operar, podem, quando na dose certa, nos brindar com uma excelente história. Desde um conto de Borges ou Cortázar a uma história de Asimov. Na literatura de Eça de Queirós ou na pintura de Picasso. Nas alucinantes obras de Escher  ou nos inventos de Da Vinci. Assim como o sal e o açúcar fornecem diferentes gostos à comida quando colocados em pratos separados, misturá-los em um mesmo prato pode nos trazer gratas surpresas.